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Porno-Sindicalismo

Cada mês de greve dos estivadores custa 400 milhões de euros ao país. Em dez meses, estará engolido pelo esgoto o equivalente aos quatro mil milhões de euros que será necessário cortar no Estado Social. O direito à greve dos estivadores é sagrado? Claro que é, como é sagrado o direito dos outros dez milhões de portugueses aos apoios sociais, às reformas, à saúde, à segurança, à educação. Ou a não serem espremidos até à última gota de sangue em impostos e taxas que servem, no limite, para se assegurar a alguns aquilo que não pode ser distribuído por todos.

O que os estivadores não querem é perder o seu regime de excepção, onde não é aplicável o Código do Trabalho, e que se alguma aproximação tem é às corporações de artes e ofícios da idade média. A eles não se aplica o imperativo categórico de Kant (“age como se a tua conduta pudesse ser convertida em regra universal”), pois pretendem precisamente que o seu estatuto não seja regra geral e, mais do que isso, que as regras gerais se lhes não apliquem.

Há muita gente, sempre houve, que acha ser excepcional e dever beneficiar de regalias não generalizáveis. Na Grécia, por exemplo, nas chamadas profissões de desgaste rápido, era possível a reforma aos cinquenta anos. É claro que por pressão de muitas profissões, de muitos grupos de interesses, se foi alargando o lote até este abarcar muitas dezenas de profissões. Cabeleireiras, por exemplo. E o conceito iria alargar-se a todas, idealmente, tivessem elas a mesma capacidade de reivindicar e não tivesse o Estado Grego falido entretanto.

Não me entendam mal: o sindicalismo é necessário e sem ele estaríamos muito pior. Os trabalhadores necessitam de se organizar para conseguirem obter das entidades patronais o respeito por direitos essenciais e a estipulação de um salário justo. A não ser assim, pressionados pela taxa de desemprego, teriam de aceitar retribuições cada vez mais baixas, cada vez mais insuficientes. Mas os sindicatos dos ricos, tendo garantido o mínimo, têm de ter a noção dos limites por cima e de que milhões de trabalhadores mais pobres estão a assistir a tudo e a interrogar-se se essas reivindicações lhes serão também generalizáveis e, não o sendo, se serão justas.

Está aqui, na fronteira entre a reivindicação do que é justo e daquilo que apenas se obtém à custa dos que não têm capacidade de reivindicar, o limite entre o bom e o mau sindicalismo, entre a justiça e a extorsão.

Por: António Ferreira

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