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O Mundo ao contrário

Em casa colocava os quadros de pernas para o ar. Quando saía de casa levava meias nas mãos – é o frio! – dizia. Sempre começava as conversas por “Adeus e até à próxima”. Escrevia com facilidade as palavras de trás para a frente. Andava muitas vezes com as mãos no chão, realizando pinos perfeitos. Quando foi ter com ela perguntou – porque não nos divorciamos já? E assim aqueles que nunca se tinham visto casaram realizando a festa primeiro e a cerimónia no fim. Vestia a roupa com as costas para a frente e desse modo, quando se aproximava, parecia que partia. Começava as histórias pelo fim, as anedotas pela conclusão e os livros pelo epílogo. O Geraldo entrava em casa pela janela e descia por uma corda a partir do telhado. Que o levava a ser assim? Fez uma Ressonância Funcional, fez uma Tomografia e descobriram que tinha uma pequena área isquémica ali junto do Tentorium Cerebelo do lado esquerdo. Seria disso? Ficou tudo limpo para a ciência: era defeito. Ficou claro para os piedosos: era deficiência. Soube a mentira para a esposa. Formou-se um choro nos amigos e um lamento nos fãs. Geraldo tinha uma lesão e por isso era diferente. Afinal, não era uma manifestação de uma pessoa brilhante, era a consequência de uma deficiência. Geraldo mudou tudo. Os quadros giraram para a posição normal. Em vez de meias, calçou luvas nas mãos, vestiu os fatos direito, não fez pinos nunca mais. Afinal, tudo o que fazia era por querer. Que doença? Qual doença? O Mundo ficou normal e Geraldo ficou mais triste, mais legível. E agora? Provou que era um cenário seu, que era uma vontade sua. Mas o Mundo sem avesso tornou-o menos feliz. A infelicidade ninguém culpou à isquemia do cérebro. Ninguém procurou doença. Ser infeliz num Mundo perfeito parecia ser normal.

Por: Diogo Cabrita

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