“O saber está para os alunos como o dinheiro para os empregados bancários:
passa-lhes muito pelas mãos mas no fim do dia enriqueceram?” (Perrenoud)
Se nos perguntarem qual é o ofício mais ingrato e mais mal pago, poucos apontarão para o ofício de aluno como o que encaixa nessas características. Nem aliás a atividade que o aluno exerce encaixa bem no que chamamos ofício ou profissão. Mas seria difícil encontrar outra atividade forçada, dura, com um horário que não para no fim de semana, não remunerada e em que o único prémio será a avaliação arbitrária de um grupo de professores convertível a prazo num diploma. E ainda por cima a fazer um trabalho que não se pode trocar ou recusar.
Ser aluno não é pera doce. Meter-se numa escola todos os dias desde as 8 h 30 (horas de madrugada na visão de muitos jovens), integrar-se num grupo-turma que muitas vezes não se conhece, funcionar em multidão fora dos tempos de aula (em escolas com várias centenas de alunos) significa participar duma instituição que quase podíamos dizer concentracionária. Depois, enfiar a cada grupo de alunos o mesmo funil na cabeça e meter-lhes rigorosamente a mesma coisa pelo cérebro abaixo é outra enormidade em que a escola se deixou cair pela massificação obsessiva baseada na ideia de que não há volta a dar. Por seu lado a criança e o jovem são encorajados a aceitar as normas, a respeitar a disciplina, a ser conformistas e aplicados: isso dar-lhes-á compensações no momento da avaliação.
Para pensarmos em como este ofício de aluno pode ser considerado à partida irracionalmente absurdo basta visualizar toda a máquina escolar, tal como Philippe Perrenoud a caracteriza nas suas obras mais famosas. Em primeiro lugar, o funcionamento em horário de zapping: quando uma atividade está ainda a aquecer, interrompe-se com o toque da campainha e renuncia-se a ela para se passar a outra, novamente com os motores a frio. Por outro lado, quando alguém quer enveredar por um caminho que se afaste do caminho “médio”, logo vem o impulso normalizador do professor que não “pode” deixar sair o comboio dos carris, mesmo que a curiosidade pudesse encaminhar o jovem para caminhos frutuosos. Depois, o aluno está sempre a controlar aquilo que convém ou não dizer ou fazer, adaptando-se também pouco a pouco às regras das restrições escolares, à cultura escolar. Alguém aceitaria que um aluno, ao não saber responder a uma pergunta de escolha múltipla com 4 alíneas, dissesse simplesmente que não sabia, quando podia simplesmente responder ao acaso, arriscando a responder certo? Finalmente o respeito pela sabedoria escolar, habilmente construída ao longo dos anos, incontestável e exata, leva à eliminação da dúvida e da contestação: se na vida o real é complexo, na escola o saber não pode merecer dúvidas.
Outro bloqueio impede regularmente que a comunicação se faça em condições normais. Trata-se da cultura de avaliação que se criou nas situações de aula. Quem falará à vontade ao saber que cada intervenção é objeto de um juízo permanente, que, a cada vez que se abre a boca, o erro ou a imprecisão poderá constituir um sinal negativo na caderneta escolar ou um feedback negativo para os pais? Em contrapartida é incrível o desfasamento instituído na comunicação quando o jovem quer falar e não pode ou quando o querem obrigar a falar sem ele o desejar. Em outras ocasiões o jovem terá de esperar até que surja o momento “adequado”, em que muitas vezes a oportunidade já se perdeu. O poder de falar e de mandar calar é das realidades mais “assimétricas” na escola, como relembra Perrenoud. A resposta “natural” mas mal compreendida pelos professores é a “comunicação clandestina”: papelinhos, conversas informais, brincadeiras, interrupções, saídas ao WC. Como seria possível aguentar 30 horas por semana (ou mais), só a ouvir ou a responder ao professor, quieto, sentado no quadrado da sala? Há alguma teoria da comunicação que resista?
As mensagens das novas pedagogias, das estratégias criativas, do primado da comunicação, da diferenciação e individualização do ensino que há três ou quatro décadas enchem as escolas são pois por isso belas palavras mas com muita ineficácia dentro das 4 paredes blindadas do estabelecimento. Fazer igual para todos dá mesmo muito mais jeito. Fazer “como sempre se fez” não faz levantar ondas. E enquanto não se inventa uma nova escola correr riscos é um risco.
(Philippe Perrenoud, Ofício de Aluno e Sentido do Trabalho Escolar, Porto Editora, Porto, 1996)
Por: Joaquim Igreja
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