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«Não estou disponível para gerir guerras»

Cara a Cara – Entrevista

P – Quais os desafios com que se depara neste momento na direcção dos Bombeiros da Guarda, tendo em conta que não teve oposição nem, aparentemente, contestação?

R – O primeiro desafio é connosco próprios. É um desafio de permanência no cargo, mas com um repto: não cristalizar e continuar com a vitalidade desta casa, porque a Associação Humanitária dos Bombeiros da Guarda tem 132 anos e a média etária das pessoas que a compõem anda nos 35 anos. É uma associação que está permanentemente em renovação. Surgem depois três grandes objectivos. A adaptação ao novo quadro legal que foi instituído nos Bombeiros a nível nacional. Lançar esta associação numa nova etapa, pois os estatutos aprovados no ano passado entram agora em vigência em toda a sua plenitude. E o novo regulamento interno.

P – E quais são as principais alterações que se avizinham nesse âmbito, no próximo ano?

R – Até agora havia uma categoria genérica, e agora há duas carreiras: bombeiro e oficial bombeiro. O oficial bombeiro tem outro tipo de qualificações, nomeadamente ao nível da habilitação literária. É uma carreira mais técnica, enquanto que a de bombeiro é mais operacional. É preciso formatar todo o corpo de bombeiros e prepará-lo em termos orgânicos para responder a esta exigência da nova lei. Nós temos esses quadros, mas temo a crise da disponibilidade.

P – Com a crescente profissionalização da Protecção Civil e um apetrechamento cada vez mais visível no que respeita aos meios de socorro, o voluntariado dos bombeiros está em causa?

R – Tenho a opinião precisamente contrária. Agora é que o voluntariado vai ser valorizado. Os bombeiros são o principal braço armado da protecção civil, mas esta não se esgota nos bombeiros. A protecção civil tem de ter uma parte profissionalizada, porque os bombeiros não podem fazer tudo. Mas agora é que o voluntariado vai ser valorizado, porque o Estado não tem estrutura para profissionalizar tudo. Nós somos 44 mil homens no país e o Estado não tem nenhuma estrutura para pagar a tanta gente. Terão de ser as associações humanitárias a acorrer às populações. Há-de chegar um momento em que o Estado, nesta fobia, nesta cegueira, de tudo profissionalizar, vai dar conta de que não consegue e que tem de apoiar as associações.

P – Quais são as maiores necessidades dos bombeiros da Guarda neste momento?

R – Quanto às necessidades institucionais, os bombeiros da Guarda precisam que fiquem definidas de uma vez por todas várias questões. Primeiro, que somos uma associação humanitária autónoma, independente, apartidária e não cooptavel através de subsídios. Em segundo lugar, que todos aqueles que exercem funções nos órgãos sociais da associação humanitária foram eleitos para geri-la, pois recusamos transportar para a nossa missão a gestão de conflitos e azias de outros. Não estou disponível para gerir guerras. A nível material, já avisei a governadora civil e o presidente da Câmara de que a Guarda necessita de uma viatura para combate a fogos urbanos. Com o QREN, transmitimos junto do Governo Civil, a nossa disponibilidade para se apresentar uma candidatura conjunta, mas foi-nos dito que havia outras prioridades. Nós mantemos a nossa disponibilidade, mas não para sermos acusados de qualquer negligência quando – oxalá que nunca aconteça – por ausência desse meio alguma coisa corra menos bem. E também precisamos de renovar a frota de ambulâncias de longo curso.

P – Que papel caberá aos bombeiros neste novo modelo de serviços de protecção civil?

R – Os bombeiros terão o papel que sempre tiveram. As suas missões estão absolutamente especificadas por lei e não há nenhuma comunidade neste país que possa passar sem os bombeiros. O Estado profissionaliza, mas para pagar aos seus profissionais, vai às associações humanitárias. Os contratos de trabalho dos canarinhos, que são a força especial de bombeiros do Estado, são pagos por nós. O Estado paga-nos e nós pagamos aos canarinhos. Sem voluntariado não se consegue ter protecção civil.

P – Qual é o ambiente que se vive nesta altura no quartel dos Bombeiros Voluntários da Guarda?

R – O ambiente interno é magnífico, de bem-estar e muito difícil de encontrar no resto do país.

P – Há alguns meses, tanto Luís Santos como Gil Barreiros puseram o dedo na ferida e falaram de um ambiente concorrencial entre bombeiros e Protecção Civil. Qual é a sua posição em relação a este aspecto?

R – Efectivamente, houve uma altura em que parece que havia uma pretensão concorrencial. Havia forças a fazerem as mesmas coisas, havia repetições. Parece que se correu para isto tudo em termos concorrenciais. O que acho é que não deve haver concorrência nisto. Se alguém está nisto com uma perspectiva concorrencial, está redondamente enganado, seja ele bombeiro, GNR, canarinho, autoridade nacional de protecção civil… Mas se há este “frisson”, não são os bombeiros que o criam.

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