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“Educação: protestar”

Atmosfera Portátil

E eis que, sem surpresas, regressam em força as manifestações dos professores contra o actual regime de avaliação dos docentes. Desta vez, 120 mil professores estiveram nas ruas no último Sábado em Lisboa (muitos da Guarda), 85% da totalidade de professores de todo o sistema de ensino. Por este andar, dado o clima de profunda desmotivação e descontentamento da classe docente, é bem possível que a próxima manifestação geral, agendada para o próximo dia 19 de Janeiro, esteja presente nas ruas a totalidade desta classe profissional. Isto é, seria um fenómeno de contestação social nunca visto em Portugal. Apesar das ondas de intolerável insatisfação, a Ministra continua obstinada na implementação deste modelo de avaliação completamente injusto, ultra-burocrático e desajustado da realidade escolar diária. Como ela não está no terreno…

Há uns meses houve uma conferência internacional em Lisboa cujo tema principal foi a educação nos países desenvolvidos. Nessa conferência estavam representantes de vários países cujos sistemas de educação constituem um modelo de sucesso a nível mundial. Não apenas no aspecto estatístico (como parece ser a única obsessão do Ministério da Educação português) mas também numa perspectiva do próprio sistema de ensino-aprendizagem, da qualidade da educação, da relação professor-aluno, da qualidade dos equipamentos escolares, etc. Os países do norte da Europa, com a Finlândia à cabeça, continuam como faróis da vanguarda educativa, com políticas de sucesso que investem na formação docente, nos espaços e equipamentos escolares, etc.

Por cá o Ministério da Educação prefere promover o facilitismo nos exames para incrementar o sucesso escolar à força, e investir em planos tecnológicos inconsequentes e desenraizados da realidade educativa (computador “Magalhães” como falacioso paradigma de resolução dos problemas educativos). É que a realidade do sistema de ensino português é profundamente diferente da realidade finlandesa. Por cá continua a haver um elevado índice de abandono escolar, insucesso escolar real, desmotivação profissional na comunidade educativa (alunos, professores e funcionários). Ou seja, um abismo separa a Finlândia e Portugal em todos os índices de desenvolvimento, educação inclusive. É toda uma política diferente que está em jogo, uma filosofia de ensino que incentiva a criatividade, o empenho e o trabalho dos alunos e se centra na verdadeira qualidade do ensino ministrado. Os equipamentos escolares são muitíssimo mais bem apetrechados e organizados, possuem mais recursos materiais, mais dinheiro, mais qualificação especializada, entre muitos outros aspectos que incutem dinâmica ao sistema de ensino. Para além disso, não esqueçamos um ponto fulcral: a Finlândia é um dos países mais desenvolvidos do mundo, onde o investimento na cultura, na componente social, e na educação, são traves mestras de toda uma sociedade (apesar da recente crise financeira).

Mesmo que Portugal conseguisse, por qualquer gesto mágico, a partir de hoje mesmo, implementar os mesmos critérios finlandeses de desenvolvimento, só daqui a duas ou três gerações é que teríamos resultados visíveis. Daí que o atraso português no domínio da educação é de várias décadas comparativamente com o exemplo da Finlândia. Só. Por isso, perante o panorama de total insensibilidade do Governo face aos problemas reais que grassam diariamente nas escolas deste país, apenas resta aos professores protestar contra tamanha cegueira e teimosia governativa. Protestar, protestar, protestar…

Por: Victor Afonso

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