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Eu a caminho do Algarve na A2, o Américo na A13, junto a Santarém, e a Rita na A8 aproximando-se de Leiria. Um cão. Um arame protector da auto-estrada roto e um cão. Uma pedra a cair de uma ponte. Água no chão e uma chuva intensa. A pedra a descer sobre a A8, a chuva a inundar a A2 e o cão a passear na A13. Rita descansada, pois a estrada tem pouca gente e ela com pressa. Américo adora este carro novo, que comprou para poupar impostos. A vida corre-lhe bem. O cão feliz sem a chuva que aí chegará. A pedra lançada de um viaduto por uma mão incauta. A chuva não devia fazer lagos no alcatrão. Américo vai rápido e telefona para Rita, que conheceu há três dias num inesperado almoço. O último telefonema fez-mo a mim, sobre Rita, que lhe tinha apresentado num surpreendente encontro na Rua de Cabo Verde. Rita mulata da Praia e nós na Rua de Cabo Verde. Américo nascido em Angola e a fazer um empreendimento na cidade da Praia. Depois foram dois dias, cada um em seu lugar e agora eu na A2, com chuva, ele na A13 e um cão e ela na A5 enquanto uma pedra desce de um viaduto. Concomitantemente, ouvem na rádio Valentim Loureiro a desancar os tribunais, depois Sócrates a desvalorizar os números do Banco de Portugal e ainda Cristiano Ronaldo ofendido com a sua escravatura e, por fim, um estrondo enorme. Um carro à frente de Rita recebe o impacto da pedra e sai da estrada, um carro frente a mim entra em derrapagem e enfaixa-se nos railes e um carro frente a Américo atira um cão pelo ar mais de 100 metros. Rita assustada recebe a chamada de Américo que ainda não fala. Hoje não era a nossa vez.

Por: Diogo Cabrita

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