Talvez já há mais de cinco anos que o vejo. Não sei o nome. Não sei onde mora. Não sei de onde vem, nem para onde vai. Sei apenas que todos os dias atravessa a Guarda a pé. Corpo direito. Passos certos. Quilómetros feitos sem pressa de chegar a lado nenhum. Já o encontrei no centro histórico, entre ruas e vielas de pedra. Já o vi pelo Mileu e Bairro do Pinheiro, a subir e a descer. Já o encontrei junto ao Polis. Umas vezes de manhã, outras vezes mais tarde, outras vezes de manhã e de tarde.
Há qualquer coisa naquele homem que me prende o olhar. Talvez tenha perto de 74 anos. Talvez tenha sido militar. Talvez tenha passado a vida a pilotar aviões da TAP. Talvez tenha defendido uma baliza algures. Talvez tenha tido uma profissão completamente diferente de todas estas. Não sei. Não importa. E talvez seja precisamente isso que torna a história bonita.
Há pessoas que atravessam uma cidade inteira sem que a cidade saiba o nome delas. Aquele homem caminha. E, enquanto caminha, parece saborear cada pedaço da cidade. Uma esquina. Uma praça. Uma rua de pedra. Um banco. Uma árvore. Um pedaço de céu.
Às vezes penso que não está simplesmente a fazer exercício. Está a viver. Há qualquer coisa no seu olhar, ou talvez seja apenas aquilo que eu quero imaginar que vejo, que me transmite uma vontade enorme de aproveitar cada momento que a vida ainda lhe oferece. Como quem sabe que o tempo não se guarda. Como quem percebeu que viver não é esperar pelo momento certo. É caminhar com o momento que temos. Talvez por isso nunca o tenha visto desistir. Nem nos dias quentes ou frios. Nem quando a cidade parece mais cinzenta. Nem quando o vento corta. Nem quando a Guarda nos lembra, com a sua pedra, os seus declives e o seu inverno, que viver aqui também exige resistência. Ele continua. Rua após rua. Viela após viela. Pedra após pedra. Alcatrão após alcatrão.
Há qualquer coisa de profundamente bonito nisso. Porque, no meio de tantos comunicados, polémicas e discussões sobre aquilo que a cidade é ou devia ser, aquele homem lembra-me de uma coisa muito mais simples: a cidade também é feita de pessoas. De pessoas que não aparecem nas fotografias. De pessoas que nunca sobem a um palco. De pessoas que não procuram protagonismo. De pessoas que simplesmente acordam, saem de casa e continuam. Talvez seja essa uma das maiores riquezas da Guarda. Os seus anónimos. A mulher que todos os dias abre a porta da mesma loja. O homem que varre a mesma rua. O trabalhador que chega cedo. Aquele que cuida dos outros sem ninguém saber. Aquele que, depois de uma vida inteira de trabalho, ainda encontra forças para caminhar quilómetros. Aqueles que, apesar das dificuldades, continuam a acreditar. Não precisam de medalhas ou homenagens. Não precisam sequer que saibamos os seus nomes. Precisam apenas de ser vistos.
Seria um desafio bonito, no 827º aniversário da cidade, a 27 de novembro, o município pudesse fazer uma homenagem diferente. Uma homenagem aos que nunca são homenageados. A todos os anónimos guardenses que, todos os dias, fazem a sua parte. Sem megafones, sem holofotes e sem esperar nada em troca. Aos que cuidam. Aos que trabalham. Aos que ensinam. Aos que criam. Aos que ajudam. Aos que resistem. Aos que envelhecem nesta cidade sem nunca deixarem de acreditar nela. E, sobretudo, aos que continuam a caminhar.
Talvez um dia consiga finalmente saber o nome daquele senhor. Talvez não. E, pensando bem, talvez prefira que continue anónimo. Porque ele não precisa de um nome para representar tantos. Há pessoas que passam pela cidade. Há pessoas que, sem saberem, dão sentido à cidade. Ele é uma delas. Talvez a sua maior lição seja esta: não podemos escolher tudo aquilo que a vida nos traz, mas podemos escolher continuar a caminhar. Todos os dias. Rua após rua. Momento após momento. A saborear a vida enquanto ela acontece. Essa também é uma forma de amar a Guarda. Essa é, talvez, a verdadeira arte de viver.


