P
– Qual a importância de realizar o Grande Prémio Internacional de Ciclismo das Beiras e Serra da Estrela?
R – O GP Internacional Beiras e Serra da Estrela é hoje muito mais do que uma competição desportiva. É um instrumento estratégico de promoção territorial e de afirmação desta região no contexto nacional e internacional. Ao longo dos anos conseguimos transformar a prova numa plataforma capaz de projetar o território, valorizar a paisagem, o património, as tradições, a gastronomia e a qualidade de vida existente no Interior. Além disso, o GP tem um mérito muito importante: conseguiu unir 16 municípios em torno de uma visão comum para o território, o que demonstra que é possível trabalhar em rede, criar escala e construir uma estratégia conjunta de valorização regional. No fundo, esta prova ajuda-nos a mostrar que o Interior é central, embora muitos ainda teimem em chamar-lhe periferia. É um território com capacidade para organizar grandes eventos, atrair visitantes, gerar notoriedade e afirmar-se pela sua autenticidade.
P – A AMCB tem quantificado o retorno e o impacto da prova na economia regional?
R – Sim, os indicadores demonstram bem a dimensão que a prova já alcançou. Na última edição, o GP Internacional Beiras e Serra da Estrela atingiu mais de 8 milhões de pessoas a nível mundial, através da transmissão em streaming nas plataformas digitais e da cobertura mediática especializada. Aquilo que estamos a construir é uma estratégia consistente de valorização territorial, capaz de capitalizar, ao longo dos anos, o potencial do território das Beiras e Serra da Estrela. Existe impacto direto na hotelaria, restauração, comércio e serviços locais, mas o principal objetivo é mais estrutural: posicionar esta região como um território atrativo para visitar mas sobretudo para investir, viver e regressar. Essa visão foi, aliás, reconhecida pelo próprio Programa Portugal Events, que entendeu este projeto conjunto entre 16 autarquias como uma oportunidade estratégica de promoção territorial.
P – O GP Beiras e Serra da Estrela está classificado como categoria 2.0 da UCI. O que falta para subir de nível?
R – O GP Beiras e Serra da Estrela, atualmente na categoria UCI 2.1, tem vindo a desenvolver um trabalho consistente para continuar a crescer e, no futuro, poder ambicionar a subida de categoria. Mas subir de patamar exige, inevitavelmente, maior capacidade financeira, logística e estrutural. Do ponto de vista organizativo, desportivo e territorial, sentimos que a prova se tem consolidado de forma muito positiva. O crescimento do número de equipas internacionais, da notoriedade da competição e do reconhecimento atribuído pela UCI demonstram isso mesmo. Uma evolução futura para categorias superiores, como a UCI 2.Pro, exige reforço de investimento, maior envolvimento empresarial, mais capacidade de internacionalização e um apoio institucional mais robusto. Temos ambição para continuar a crescer, mas também temos consciência de que projetos desta dimensão não podem depender exclusivamente do esforço dos municípios, esse crescimento terá de ser acompanhado por parceiros públicos e privados com visão de médio e longo prazo.
P – É possível ter mais dias e mais etapas, ou este é o modelo ideal para a prova?
R – Tudo dependerá da capacidade de crescimento sustentável da prova e da forma como conseguirmos conciliar a ambição desportiva com os objetivos estratégicos definidos para o evento. Importa recordar que esta prova não tinha sequer histórico. Esse histórico está a ser construído edição após edição, com trabalho, exigência e consistência organizativa. E é precisamente com base nesse percurso que temos vindo também a evoluir no reconhecimento e no ranking da UCI. Naturalmente gostaríamos de continuar a crescer, seja em dimensão, notoriedade ou até no número de etapas. Mas quanto mais exigentes formos connosco e quanto mais ambicionarmos subir de categoria, mais complexo se torna encontrar janelas temporais adequadas no calendário internacional porque a concorrência de trazer os melhores do ranking mundial é enorme. Quando uma prova sobe de patamar, passa também a competir por espaço mediático, equipas e calendário com grandes provas mundiais, como a Vuelta a Burgos, Vuelta à Comunidade Valenciana, a volta ao Algarve em Bicicleta entre outras competições internacionais de referência. Isso obriga a uma gestão muito cuidadosa entre aquilo que queremos para a prova, aquilo que é tecnicamente possível e aquilo que o calendário mundial permite. Por isso, mais do que crescer por crescer, queremos ir consolidando cada conquista. O modelo atual tem permitido dar consistência ao projeto, assegurar equilíbrio territorial entre os municípios envolvidos e criar uma narrativa desportiva e promocional forte. No futuro, se houver condições financeiras, logísticas e institucionais, poderemos naturalmente avaliar novos formatos, mais etapas ou maior duração.
P – Qual é o orçamento desta edição? E que apoios tem a AMCB para organizar o GP Beiras e Serra da Estrela?
R – O GP Internacional Beiras e Serra da Estrela é um evento com uma dimensão organizativa muito significativa, envolvendo um investimento global relevante por parte dos municípios, parceiros e entidades associadas. A prova conta com o envolvimento direto dos municípios participantes, da ENERAREA, de parceiros institucionais, patrocinadores e também com apoios enquadrados em programas de valorização e promoção territorial, como o Portugal Events. Mas não queremos olhar apenas para o valor financeiro da edição, importa perceber o esforço conjunto que está por detrás de uma organização desta dimensão: segurança, logística, promoção, transmissão, equipas, mobilização dos municípios e coordenação territorial. Organizar um evento desta dimensão no Interior exige um esforço muito grande. Por isso, consideramos fundamental continuar a reforçar o apoio institucional e empresarial a projetos que ajudam efetivamente a promover o território e combater assimetrias regionais.
P – Que outras iniciativas conta organizar a AMCB para promover a região?
R – A AMCB tem vindo a trabalhar numa estratégia integrada de valorização territorial, onde a promoção da região não se faz apenas através do desporto ou do turismo, mas também através da transição ambiental, energética e digital. O GP Internacional Beiras e Serra da Estrela é um dos projetos mais visíveis dessa estratégia, mas não é caso único. Temos vindo a apoiar os municípios em áreas como a eficiência energética, a mobilidade elétrica, a valorização dos recursos endógenos, a sustentabilidade ambiental, a cooperação transfronteiriça e a adaptação do território aos novos desafios climáticos. Com o apoio técnico da ENERAREA, temos procurado desenvolver projetos que ajudem os municípios a reduzir consumos, melhorar o desempenho energético dos edifícios, promover soluções de mobilidade mais sustentável e captar financiamento para investimentos estruturantes. Ao mesmo tempo, queremos continuar a explorar novas áreas de inovação, nomeadamente a inteligência artificial, a digitalização, a gestão inteligente do território e a utilização de dados para apoiar melhores decisões públicas. Aquilo que procuramos é construir uma imagem moderna, atrativa e diferenciadora das Beiras e Serra da Estrela: um território que valoriza a sua identidade, mas que também aposta na sustentabilidade, na inovação e na capacidade de se afirmar como território de futuro.



