Algumas notícias recentes da Madeira, coligidas sobretudo no jornal “Público”: “financiamento de Jardim aos clubes de futebol madeirenses é ilegal”; “Madeira contrai empréstimo”; “Líder da oposição madeirense condenado a indemnizar Jardim por delito de opinião”; “Jardim garante que estará ao lado dos madeirenses no dia em que o povo quiser a independência”. Não resisto a comentar as duas últimas. Antes de mais, recordo que o líder da oposição a Jardim que foi condenado viu ser-lhe levantada pelo parlamento regional a imunidade que gozava como deputado de forma a poder ser julgado. Esse mesmo parlamento (que deixou lavradas em acta suspeitas de insanidade mental desse líder da oposição), recorde-se, recusou inúmeras vezes levantar a imunidade a Jardim, permitindo-lhe continuar a insultar quem quisesse e ficar impune por isso. Por isso, na Madeira é assim: o chefe insulta, ninguém insulta o chefe. Dirão que é uma prerrogativa de ser chefe, mas não o será em sociedades democráticas.
A última, a promessa de ficar ao lado do povo madeirense quando este quiser a independência, tem também que se lhe diga. Começa a ser consensual entre os portugueses, pelo menos os do “continente”, que a Madeira é um luxo que podemos muito bem dispensar. Recordo um artigo de António Barreto, publicado não há muitos anos, que sugeria fosse discutida seriamente a possibilidade dessa independência. Afinal de contas, o “ciclo do império” foi oficialmente encerrado e é desagradável haver quem ainda se sinta colonizado por nós. Há também isto, este cada vez mais recorrente hábito, ou tique, que me toca a mim também, de falarmos em “nós” e “eles” quando tratamos na mesma frase de madeirenses e “continentais” (temos vergonha, por enquanto, de dizer “portugueses” em vez de “continentais”). A verdade é que a unidade nacional se quebrou. Temos (os portugueses) cada vez menos a ver com eles (os madeirenses). E eles, como dizia Zsa Zsa Gabor de um dos seus muitos maridos, a única coisa que têm em comum connosco é o nosso dinheiro.
Infelizmente para nós, João Jardim sabem muito bem que não pode ser independente. Portugal, por pouco, também não, mas nós temos tradição nisso e já passámos por dificuldades maiores. Uma delas é, por exemplo, a taxa de cobertura das importações pelas exportações. Actualmente, está em cerca de 65%, ou um pouco mais atendendo à melhoria nesse aspecto em 2007. Significa isto que por cada 100 euros em bens que importamos apenas exportamos 65. É muito pouco e implica um grave défice externo. O problema da Madeira é que o seu défice externo é muito mais grave do que a média nacional, já que tinha (dados de 2004) uma taxa de cobertura de apenas 12%. Álvaro Santos Pereira (Os Mitos da Economia Portuguesa, Guerra e Paz 2007) analisa as possibilidades de uma Madeira independente e conclui claramente que o arquipélago não tem condições para seguir o seu caminho sem nós. Azar nosso, que melhoraríamos os números do nosso défice externo, baixaríamos o défice orçamental e deixávamos de ter de nos sentir embaraçados com os números de Alberto João. E ainda por cima ficávamos-lhes com o Cristiano Ronaldo.
Por: António Ferreira


