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Táxis

Quando, pelas manhãs de sol claro ou de chuva minuciosa e pelas tardes de vento alto ou de calma leve, apanho um táxi, sei bem que chegou a hora em que tudo pode acontecer. Aquele espaço configurado sobre quatro rodas é protegido por Calíope, a musa grega da eloquência, que dá ao motorista os dons verbais dos oradores clássicos e os gestos largos dos tribunos românticos. Às vezes, o taxista parece mesmo existir para desafiar o versículo 6.54 do Tratactus Logico-Philosophicus, de Ludwig Wittgenstein, que afirma: “Acerca daquilo de que não se pode falar, tem que se ficar em silêncio.” É que até o silêncio de alguns é o anúncio de um tropel de palavras. Certo dia, apanhei um táxi e o “fogareiro” (assim eles se chamam a si próprios) exibia um mutismo absoluto. Subitamente, quando chegámos ao Rossio, àquela hora cheio de gente, sucedeu um brado que dizia: “Isto só se endireita quando encostarem uns milhares à parede e com uma metralhadora lhes limparem o sarampo!” O que me embaraçou foi a escolha cruel da arma de fogo repetitiva, mas não tive dúvidas de que esta sentença se fundava numa sólida “weltanschaaung”.

Quem anda de táxi sabe do que falo. Podemos até, do património inextinguível das palavras ouvidas, tirar conclusões gerais: é provável que haja uma teoria da vida, uma visão da história e uma concepção da política que sejam comuns aos nossos interlocutores do volante. Mas isso não anula a especialidade própria em que cada um se distingue. David Mourão-Ferreira, que andava sempre de táxi, tinha uma maravilhosa colecção de histórias. Costumava ele contar a do taxista que, quando percorriam a alameda sem prédios que atravessa o Parque Eduardo VII e onde agora se ergue uma imensa bandeira nacional, lhe perguntou: “O senhor por acaso sabe qual é o nome desta rua? ” O escritor, que passava habitualmente por ali e reparara na placa toponímica, por acaso sabia e foi rápido a dizê-lo: “Alameda Cardeal Cerejeira”. O motorista virou-se para trás, quase pondo em risco a vida de ambos, e exclamou, admirado e magnânimo: “Pois deixe-me que lhe diga uma coisa: o senhor tem uma cultura acima da média!” Com efeito, tinha…

Eu também já ouvi muito e de tudo. Para falar apenas da última semana, um taxista cantou alto e em uníssono todas as canções que um programa de rádio local ia transmitindo. Que ouvido e que memória tinha o homem! Outro quis convencer-me de que possuía a solução para a tragédia do Iraque. Com audácia, até estendeu a sua clarividência globalizada ao conflito que, há décadas, devasta as tristes terras onde um dia Jesus andou a dar vista aos cegos para que pudessem olhar os lírios do campo. Outro, ainda, quis, com ameaças apocalípticas, converter-me à sua estranha religião e às rigorosas interdições e castigos dela.

Anoiteceu. Entro num táxi. Para me prevenir e proteger, penso em Kant e nas palavras finais da Crítica da Razão Prática: “Sobre mim, o céu estrelado; em mim, a lei moral.” Com elas, resisto a uma voz que diz precisarmos “de dez salazares para pôr isto na ordem”. Meditando nelas, vou olhando as luzes da cidade imprudentemente indiferente à fúria com que o motorista a quer exterminar…

Por: José Manuel dos Santos

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