As forçosamente breves nótulas aqui publicadas sobre a Alemanha são, na melhor das hipóteses, uma chamada de atenção sobre uma realidade que precisamos de conhecer bem a fundo; e este conhecer bem a fundo não é por qualquer interesse teórico ou académico – por mais respeitáveis que sejam –, mas por pragmatismo. Que é que da Alemanha (e dos alemães) pode vir para nos engrandecer? Aqui e agora, claro.
Ensina-se – ou deve ensinar-se –, seja a quem for, que sem alteridade (pormo-nos na pele do outro) não há conhecimento possível.
Em Germania, Tácito escreveu que, quando marchavam para combate, os germanos colocavam, à frente, mulheres.
Duas conclusões parecem-me, pelo menos e desde já, possíveis: o dever não é passível de qualquer tipo de contestação e impõe-se como um imperativo categórico; a ambição tem que ser intrínseca ao ser humano e o seu corolário é uma superioridade ontológica. Os homens que integravam a coluna tirassem, portanto, “o cavalinho da chuva” – nenhum tipo de queixa ou confissão de debilidade era possível.
Um dos meus “dramas”, quando viajo pela Europa, é não saber toda a História. Não que a História seja um topo do saber – nada disso –, mas, sem ela, também não se vai a lado nenhum.
O relevo que o Papado deu ao imperador germânico ficou desde logo claro com a coroação – em Roma, pelo próprio Papa, no dia de Natal de 800 – de Carlos Magno. A Alemanha era elevada a um lugar absolutamente cimeiro na cultura, política, diplomacia… do que, posteriormente, veio a designar-se por Ocidente. E, na viragem do século XV para o XVI, baste lembrar, no âmbito da arte, nomes tão proeminentes como Grünewald, Dürer ou Altdorfer. Francisco I de França, com a força máxima, reprimia a cisão protestante no seu país, mas apoiava-a na Alemanha…
Já um dia escrevi na Praça Velha que o debilitado e debilitante estado em que a Alemanha ficou após o final da Guerra dos Trinta Anos pode ser uma explicação básica para a existência da actual “União Europeia”. Neste preciso momento, todavia, é, tão-só, para o ressentimento alemão que quero chamar a atenção.
O ressentimento aumentou quando filósofos alemães notaram que os princípios da Revolução Francesa, afinal, tinham desembocado no imperialismo napoleónico; e, a este respeito, basta lembrar, por um lado, que um homem tão empenhado como Herder pode ter aberto a caixa de Pandora e, por outro, que um homem tão empenhado como Fichte é um dos mais influentes pensadores na criação do sentimento do nacionalismo germânico.
O extraordinário sucesso que o século XIX foi para a Alemanha terá adensado este ressentimento; e Bismarque é deste uma perfeita emanação. O retrato do estadista na Alte National Galerie dá-nos o íntimo de um homem que entendia que as coisas não estavam bem e que, a bem ou a mal, tinham que pôr-se em condições (no interesse alemão, claro).
Os desenvolvimentos que se seguiram são conhecidos e levaram à hecatombe provocada pelo nazismo. Há fotografias de Hitler que, quando se dirige aos seus apaniguados (em 1933 obteve 88% dos votos), o que dele ressuma é um intraduzível ódio. Visto que o nazismo é uma heresia religiosa (mutatis mutandis como o fascismo) não há qualquer dificuldade em entendê-lo como tipicamente germânico.
Mas a tocante grandeza alemã não está apenas em ter assumido tal monstruosidade – e já não era pouco. A Alemanha passou do ressentimento ao perdão. Uma eloquente ilustração disso é-nos fornecida pelas actuais relações germano-polacas, nas quais aqueles já estão no perdão e estes – catolicíssimos – ainda estão no ressentimento.
Guarda, 16-IX-07
Por: J. A. Alves Ambrósio


