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Linhas de água potável – passado e presente, que futuro?

Há cinco anos num dos meus passeios em BTT, junto a um curso de água nos arredores da nossa cidade, um amigo comentou comigo que naquele local, quando miúdo, tinha tomado banho e pescado em águas límpidas mas que agora nem com o cheiro se podia ali estar. Acrescento que nem eu nem o meu amigo temos oitenta anos, nem setenta, mas apenas trinta e muitos. É sintomático que em cerca de vinte e cinco anos a situação se tenha alterado tanto em termos ambientais. É o progresso, dizem uns, é um desenvolvimento insustentado e insustentável, dizem outros.

Vem este prólogo a propósito de um episódio ocorrido comigo e com alunos meus aquando de uma caminhada anual pelo Parque Natural da Serra da Estrela em Junho de 2005. Estava um dia anormalmente quente. Iniciámos a nossa caminhada no Vale do Rossim por volta das 10h e dirigimo-nos à Torre, via Vale do Conde – Cume – Salgadeiras num delicioso percurso pedestre em plena natureza que felizmente só se pode fazer a pé ou, a muito custo, de bicicleta. No dia anterior à partida fiz as devidas recomendações no que dizia respeito aos cuidados com a natureza, protecção solar, indumentária, alimentação e hidratação. Quanto a este último item recomendei-lhes que levassem não mais de um litro e meio de água por pessoa. Já tinha feito aquele percurso em anos anteriores e chegava perfeitamente. Não podia estar mais enganado.

Chegados a cerca de metade do percurso a água já se tinha esgotado. Valeu-nos uma linha de água cristalina que alimenta uma pequena barragem, a do Covão dos Conchos que, por sua vez, serve a barragem do Lagoacho. Chegados a essa barragem aproveitámos para retemperar forças e para matar a sede. Não foi por acaso que parámos nesse local. Há cinco anos, eu próprio, numa das minhas loucas (dizem) incursões a solo pela serra com a minha bicicleta tive, nesse local, o “obrigatório” furo. Lembro-me que eram 12.30 e estava um calor de “rachar”. A água era pouca e estava quente, ter que mudar um pneu nessas condições tendo ainda por cima dezenas de irritantes mosquitos atraídos pela minha transpiração era demais! Ali perto corria um riacho, estava na hora de uma pausa. Desci uns metros e encontrei um curso de água que me pareceu delicioso e providencial. Atrevi-me a provar a água, estava fresca e saborosa, o silêncio era tanto que até doía e eu senti-me um tipo com muita sorte. Sorte por poder estar em completa comunhão com a natureza, sorte por ter essa mesma natureza tão perto da minha cidade, sorte por ter o raro privilégio (quantas pessoas no mundo o poderiam fazer?) de poder matar a sede da forma mais primitiva, sugando-a de um regato de água PURA. Essa mesma sorte tivemo-la cinco anos depois quando mais a necessitávamos, felizmente as condições não se tinham alterado nesse local desde então.

Dizem os entendidos que a próxima grande guerra será, não pelo petróleo mas pela água potável, cabe-nos como consumidores geri-la com regras e educar os nossos semelhantes nesse sentido. Abdicar de certos hábitos de pura vaidade como lavar viaturas, tomar banhos de imersão, lavar os dentes com a água a correr, usar e abusar da relva nos jardins, bem como (da praga) dos campos de golf, entre outras, poderão ser atitudes de grande respeito pela natureza e por todos nós.

Por: José Carlos Lopes *

* Licenciado em Geologia, professor do ensino secundário, inicia a sua colaboração nesta edição

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