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Um Verão português

1. O único Parque Nacional que temos – Peneda-Gerês – ardeu este Verão. Quatro mil hectares de pasto e mata de árvores que já não se plantam desapareceram no que era suposto ser o espaço natural e público mais bem vigiado, preservado e mantido. Afinal, soube-se depois, os caminhos não estavam abertos, a mata não estava limpa, a vigilância não estava atenta. Após reforçar com milhões de euros, helicópteros, aviões e meios sofisticados o combate aos incêndios, depois de passar o ano a intimar os proprietários privados a limparem as suas florestas, o Estado deixou arder o que era seu, por incúria e incompetência.

2. O Algarve, inevitavelmente. Este ano não foram descobertas novas praias, não se fizeram novas estradas, não mudou o saneamento básico nem a capacidade de abastecimento de água. Mas, como todos os anos, aumentou significativamente o número de aldeamentos, urbanizações, construções. Esgotada a vista de mar, de serra, do que quer que seja, a grande novidade agora são os prédios com vista para as rotundas – que, essas sim, proliferam todos os anos. E, depois de Albufeira ter inventado a primeira terrina do mundo (uma inacreditável «marina» feita um quilómetro dentro de terra, por já não haver costa disponível), Vale do Lobo projecta expandir-se para o largo, através de uma ilha artificial, que prolongará o Algarve Atlântico fora. Este Verão tive de me deslocar a Vale do Lobo e a Armação de Pêra e aconteceu-me, de ambas as vezes, uma coisa incrível: dei por mim completamente perdido no meio de tanta construção nova, sem sequer conseguir perceber para que lado estava o mar. Eu, que me gabo de nunca perder o sentido de orientação e que conheço estas terras desde miúdo, aprendi que no Algarve já só de GPS é que se chega onde se quer.

3. Lagos tinha uma estação de comboios dos anos 40 ou 50, estilo Raul Lino, uma construção branca de paredes grossas caiadas, rodeada de palmeiras e araucárias. Com o tempo, a estação foi ganhando «patine» e «charme» e, embora o comboio demorasse hora e meia a percorrer os 40 quilómetros dali até Tunes, onde havia o transbordo de e para Lisboa, era um prazer esperar ou chegar àquela estação, sempre fresca em pleno Verão, cheirando a fruta e rebuçados embrulhados em papel vegetal. Depois, fizeram a marina de Lagos à frente da estação e a cidade deixou de a ver, ali, de sentinela de boas-vindas, do outro lado do rio. Mas, enfim, pelo menos continuava lá e servia, com conforto e encanto, o seu escassíssimo tráfego ferroviário. Mas eis que a Câmara ou a CP se lembraram de ter um ataque de «modernidade». A velha e digna estação de Lagos foi desactivada (provavelmente para ser demolida e dar lugar a mais um horrendo mamarracho), e ao seu lado construíram uma aberração arquitectónica, cuja cobertura tem a particularidade de deixar permanentemente os passageiros expostos ao sol, à chuva ou ao vento e sem lugares para se sentarem. Para embelezar a coisa, resolveram fazer também na estrada que passa ao lado uma rotunda sem saída para lado algum e apenas destinada a fazer os carros andarem à roda para voltarem ao mesmo ponto. E, para «épater le touriste», fez-se um pífio jardim na rotunda, plantado em pleno mês de Julho e regado intensamente. Entretanto, milhares ou milhões de euros depois, o comboio continua a demorar a mesma hora e meia para Tunes que demorava na minha infância. Só que agora espera-se por ele à torreira do sol, numa espécie de monumento ao desperdício e ao mau gosto. É por estas e por outras que eu, quando oiço os autarcas pedirem mais dinheiro, apetece-me puxar da pistola.

4. Se alguém tem uma colecção de pintura com milhares de quadros, tem obviamente um problema entre mãos: onde os guardar, como os expor. Nos países mais «normais», o problema resolve-se habitualmente com a doação da colecção ao Estado ou com a criação de um museu privado. Mas em Portugal as coisas não se passam assim: o problema da colecção do comendador Berardo transformou-se num problema do Estado, aterrorizado com a ameaça de que o senhor levaria a colecção lá para fora, se não lhe garantissem uma solução. E assim se fez: reservaram-lhe toda a área disponível para exposições do CCB, com todos os encargos a serem pagos por nós e até 2017, altura em que Berardo poderá escolher entre vender tudo ao Estado, voltar a ameaçar que se vai embora ou ir mesmo embora, como fez em Sintra, levando a sua colecção para onde lhe garantam igual contrato leonino – o que não será fácil. Agora, ficou a saber-se também que o comendador goza do direito vitalício de vetar o director escolhido pelo Estado para gerir a área do CCB exclusivamente reservada para a colecção. Em troca permite-nos apenas que desfrutemos do privilégio de poder ver os seus quadros até 2017 – coisa que eu, aliás, nem sequer recomendo por aí além. Mas isto é apenas uma opinião minha. Eles é que sabem.

5. Enfim, uma coisa boa e um português especial. Na hora da verdade, Francis Obikwelu não se preocupou com a «síndroma Mamede»: sabia que era o melhor e que, por isso, tinha obrigação de ganhar, e ganhou. No final nem sequer sabia que tinha também ganho o direito a uma compensação monetária do Estado, pelos seus dois títulos europeus brilhantemente conquistados. O que ele lastimava era ter de viver e treinar em Espanha, porque em Portugal – onde se fizeram dez estádios para o Euro e onde se prepara um centro de estágios luxuoso para a selecção de futebol – não há uma pista coberta onde os atletas olímpicos se possam treinar durante o Inverno. Se não tem nascido na Nigéria e se não se tem treinado em Espanha, será que este português de coração teria chegado onde chegou?

Por: Miguel Sousa Tavares

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