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«A matemática não é uma ciência maldita»

Cara a Cara – Entrevista

P – De uma forma geral, o que faz a Sociedade Portuguesa de Matemática?

R – Como o próprio nome indica, é uma associação composta essencialmente por professores de matemática e investigadores. Tem um âmbito nacional, se bem que este encontro regional é organizado pela delegação de Coimbra. A SPM promove este tipo de encontros, além de outro tipo de actividades como aconteceu há relativamente pouco tempo com o MatViseu.

P – Porquê a escolha da Guarda para a realização deste encontro regional?

R – A ideia que tenho é de que é objectivo da Sociedade Portuguesa de Matemática promover a descentralização deste tipo de eventos. Não se limitam a organizar encontros e conferências em Coimbra ou nos grandes centros do litoral, mas fazem este esforço por descentralizar. No entanto, esta é uma aposta que comporta alguns riscos porque dá-me a ideia de que na Guarda, pela adesão que tivemos, a SPM não fica muito beneficiada com esta iniciativa. Está um bocadinho abaixo das expectativas, pois temos à volta de 40 participantes quando inicialmente prevíamos bastante mais.

P – A matemática tem o espectro para muitos de ser uma ciência maldita. Como vê esta afirmação?

R – … (risos).. Eu sou de matemática, portanto claro que discordo dessa afirmação. Mas compreendo que as pessoas tenham um bocado de aversão à matemática, se calhar também um pouco por culpa dos próprios professores de matemática. Mas também é um bocado culpa da cultura dos dias que correm, do imediatismo. A matemática é precisamente o contrário. É um estudo continuado ao longo do tempo e que requer trabalho que, se calhar, é outra coisa que escassa nos nossos dias.

P – Em sua opinião, o ensino da matemática deveria então ser feito de outra forma?

R – É provável que sim. Por definição, a matemática é uma coisa abstracta e aceito que tenha que ser dada como tal. Mas ao mesmo tempo, acho que devia ser feito um esforço para descer um bocadinho à terra, pelo menos nos níveis de ensino mais baixos.

P – O que se poderá fazer para que os jovens passem a gostar mais da matemática?

R – Se as matérias forem dadas não de uma maneira tão abstracta, mas de um modo mais terra-à-terra, dá-me a ideia de que isso poderá levar as pessoas a gostarem mais da matemática. Além disso, a matemática também tem algumas limitações inerentes à própria área científica, que, a meu ver, passam por só começar a ser interessante e só ter aplicabilidade de uma forma interessante em níveis já bastante superiores. Ora, as pessoas, até verem o fruto, não têm essa paciência.

P – Outra crítica feita por muita gente é que a matemática, para além das contas no dia-a-dia, não tem qualquer outra finalidade?

R – Discordo totalmente. A matemática serve para imensas coisas. O problema é que, como já disse, isso acontece apenas num nível já muito superior, em que as pessoas, se calhar, nem se apercebem de que há muita matemática por detrás. Na economia, informática, nas engenharias, em todo o lado…

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