Que sei eu de arte?
No máximo, três ou quatro centenas de livros lerei durante a vida… Parcas dezenas de pinturas e esculturas apreciarei, a maioria das quais sem entendimento, escasseia-me erudição. Cinema, teatro, dança, música… Arte performativa com atributos de universalidade na qual encaixo o gosto, porque me fica bem gostar de coisas universalmente bem catalogadas, as pessoas prezam. Contudo, já de outonos percebo eu, perdoe-se-me a imodéstia… Aliás, considero-me, mesmo, um especialista, sendo que a especialidade não a fui buscar à arte. Não. Esta especialidade aprendi-a vivendo cinco mil quatrocentas e noventa e cinco vezes e meia o outono, as suficientes para assim me considerar, perdoe-se-me de novo a imodéstia, que me já arrependi de o ter dito. Agora basta dividir este número por noventa e um para pública se me tornar a idade que tenho, e envergonho-me. Envergonho-me por desta forma a revelar, sim senhor; mas mais me envergonho pelo reconhecimento de que tal me impede de equilibrar em importância a arte e o outono. Questão prática: tempo. Lesse eu cinco mil quatrocentos e noventa e cinco livros e mais algumas páginas do seguinte – por via da meia vez; passasse eu os olhos em similares e tão quantitativas formas de expressão artística – por via da erudição – e facilmente me tornaria entendedor de uma e outra coisa, em idênticas porções; natural me seria então falar da arte tanto como do outono.
Mas não, e assim é a vida… Eu consolado na minha inculta distinção e a arte consolada na evidência da minha incultura. Pois estamos bem, até porque para o meu lado pende a instabilidade do consolo, visto serem os especialistas da arte menos versados nos meus assuntos do que eu nos deles, coitados! Eles que do nada chegam com palavreados de nostalgia e diferentes formas de a redizerem noutras circunstâncias, por acharem feia a repetição. Eles, os lúgubres, os melancólicos, os agónicos… Os de evanescentes fragilidades sentimentais inventadas para se conceberem outonos muito estéticos e muito letrados, que não os verdadeiros; e, não bastasse o logro, para depois os levarem à Natureza sobrante, que é sempre moribunda; às árvores que constantemente se despem; aos trilhos que continuamente se atapetam… Eles, os que de tautologia, bordão de letras e arremedos de arte ludibriam quem verdadeiramente sabe outonar.
A mim não me enganam, eu sei outonar!
As árvores plantam-se no outono. Já plantei cinco mil quatrocentas e noventa e cinco… E mais meia, por via das doze horas vividas hoje.
E sim, é possível plantar meia árvore. Perguntem aos poetas!
São os senhores da arte muito ignorantes em assuntos de outono, na minha opinião.
Nota do autor: In-fólio para exposição sobre o outono (não me lembro quando),
acrescentada dos entretanto vividos.
* Jorge Margarido inicia nesta edição uma colaboração mensal com O INTERIOR


