Na sua essência mais nobre, a democracia nunca foi concebida como um concurso de popularidade ou um espetáculo de vaidades. A verdadeira política faz-se com rigor, elevação e uma intransigente cultura de responsabilidade cidadã. Quem exerce o poder público deve assumir um compromisso ético de liderança política, que reside no dever de servir o bem comum, antecipar o futuro e transformar a realidade através da competência, da visão estratégica e da capacidade de realização.
Lamentavelmente, na Guarda, a métrica da ação governativa sofreu uma degradação profunda. Instalou-se a perigosa ilusão de que a boa gestão se afere pelo número de festas em que o presidente marca presença, pelas fotografias de ocasião ou pela distribuição de cheques efémeros. Confunde-se a omnipresença festiva com competência política e, de forma ainda mais gravosa, confunde-se a ação governativa com a mera troca de favores, onde se entrega o voto na expectativa de uma benesse individual. Enquanto o individualismo falar mais alto do que a ideia de bem comum, não sairemos deste mesmo lugar sombrio e enquanto a escolha pública for ditada por essa lógica clientelar, continuaremos a assistir, com desolação, ao triste espetáculo de sermos ultrapassados por cidades vizinhas que souberam traçar caminhos de verdadeira ambição, dinamismo e desenvolvimento.
Pior do que a ausência de novas obras estruturantes ao longo destes últimos treze anos – salvaguardando a curta exceção do período entre 2019 e 2021 –, é a incapacidade gritante demonstrada para preservar o património existente e assegurar a simples manutenção do quotidiano. A negligência no cuidado do espaço público tornou-se dolorosamente visível, em especial nos últimos cinco anos. Vemos passeios esburacados e degradados por onde se torna difícil caminhar, estradas em mau estado que fustigam a segurança de quem circula, espaços verdes ao abandono e um património edificado entregue ao desleixo e à ruína. Como nos ensinava a filósofa Hannah Arendt, o espaço público é o lugar da aparição comum, o palco tangível onde os cidadãos se encontram, se reconhecem como iguais e constroem a memória coletiva de uma comunidade. Quando um projeto político falha no cuidado mais elementar da sua cidade ou freguesia, desrespeita a dignidade dos seus habitantes e destrói o sentimento de orgulho e pertença ao território.
A esta incúria visível nas nossas ruas junta-se uma evidente degradação financeira e uma incapacidade crónica para atrair investimento estruturante capaz de dinamizar a economia local e fixar população. Paralelamente ao declínio material, assiste-se a uma corrosão ainda mais grave no tecido social e democrático. Perdemos rigor, perdemos elevação e perdemos o verdadeiro diálogo público. No seu lugar, instalou-se uma sufocante cultura do medo. O medo de criticar, o medo de exercer a cidadania com voz livre, o medo de perder o posto de trabalho ou de sofrer retaliações por não alinhar com o poder instituído. A comunidade regride, assim, e perde a perspetiva do seu futuro.
Perante este cenário de estagnação mascarado de celebração diária, importa olharem-se os factos. Quais foram as grandes obras e investimentos que a Guarda ganhou nos últimos anos que não tenham tido a assinatura e a determinação do Partido Socialista? Do futuro Porto Seco, que em breve será inaugurado, à Unidade Especial de Proteção e Socorro, passando pelo Departamento de Saúde da Criança e da Mulher, o investimento de fundo na nossa região continua a vir da mesma matriz. À exceção dos Passadiços do Mondego, praticamente todas as infraestruturas e edifícios estruturantes que a Guarda hoje possui foram edificados sob a gestão do Partido Socialista na Câmara Municipal ou no Governo central. É inegável. Vivemos, há mais de uma década, à sombra do legado socialista, enquanto o executivo atual se limita a consumir o rendimento do passado sem capacidade de assegurar a manutenção diária, muito menos de edificar o amanhã.
A Guarda não pode continuar refém da pequenez, da incapacidade de gestão, da política do favor e do medo. A democracia exige mais. Exige resgatar a elevação e a liberdade no debate público, devolver a dignidade às nossas ruas e ao seu espaço comum e substituir a política da festa e da ilusão por um projeto de rigor, competência e visão. Pois, como a história recente da nossa terra bem demonstra, só a matriz e o projeto político que sempre soube edificar, estruturar e proteger a Guarda terão a capacidade e a coragem de a encaminhar de novo para o futuro que verdadeiramente merece.
* Presidente da concelhia do PS da Guarda


