Opinião de Francisco Manso: A fotografia na Guarda: olhares, editores e a memória do progresso

Escrito por Francisco Manso

A história da fotografia na Guarda é, indissociavelmente, a história da própria construção da identidade visual desta cidade. Ela não nasceu por acaso, nem por mãos alheias; nasceu de um desejo profundo de fixar o tempo, de captar o instante em que a “cidade alta” se abria ao mundo e à modernidade.
O nosso marco zero é inegavelmente o ano de 1882. A inauguração do Caminho de Ferro da Beira Alta não foi apenas um evento de engenharia, foi o momento em que a Guarda “posou” para o futuro. O documento que o testemunha – uma fotografia rara e de inegável valor – traz a assinatura de J. A. Sá e Mello.
A inscrição manuscrita na base da fotografia, dentro da moldura decorativa, é perfeitamente legível:
• Esquerda: “J. A. Sá e Mello”
• Direita: “Photogr. (Guarda)”
Mais do que um simples fotógrafo, Sá e Mello foi o pioneiro de uma prática profissional consolidada na Guarda. Com estúdio estabelecido na cidade – fosse ele permanente ou temporário –, elevou a fotografia a um ofício de rigor e arte. A sua presença provou que a Guarda possuía, já então, a dinâmica cultural necessária para sustentar um estúdio capaz de imortalizar a visita da Família Real e o pulsar da nova era ferroviária. Olhar para as suas imagens é um exercício de emoção: ver a Praça Velha, engalanada e fervilhante, com uma carruagem a transportar D. Luís I, a rainha D. Maria Pia e o jovem Infante D. Carlos – que, 25 anos depois, regressaria para inaugurar o Sanatório Sousa Martins – é um testemunho histórico de arrepiar.
Contudo, este tecido visual da Guarda é plural. A fotografia na cidade foi também um exercício de intelecto e de poder, personificado no olhar de Osório da Gama e Castro. Governador Civil, o seu trabalho – hoje salvaguardado no Centro Português de Fotografia – traduz a visão de uma elite que via na lente uma forma de exercer a memória. Paralelamente, figuras como o fotógrafo itinerante Eduardo Knoff lembram-nos que a Guarda era um centro cosmopolita, um ponto de passagem onde se cruzavam técnicas e artistas que circulavam pelo país, deixando aqui marcas tão profundas como o nascimento de uma filha, que ligou para sempre o seu percurso à cidade.
Mas a grande democratização da imagem chegaria com o postal ilustrado. Por volta de 1904, Eduardo da Cruz Melo, o conhecido “Barbichas”, inaugurou uma nova era a partir do seu “Bazar do Povo”. Visionário, o comerciante que serviu o Regimento de Infantaria 12 percebeu que a Guarda podia ser exportada. Com a técnica da fototipia, fixou, através de artistas fotógrafos, a Sé, a Praça Velha e as artérias principais da cidade, criando uma «indústria da memória» antes mesmo que o Sanatório Sousa Martins (1907) viesse a potenciar este mercado a nível nacional.
O Sanatório, é certo, seria o grande motor de difusão da imagem da Guarda: a legião de doentes e familiares

José de Castro, restauro fotográfico. Col. Centro Português de Fotografia.

que aqui chegava necessitava de um veículo para relatar a sua estadia, transformando o postal no elo de ligaç

ão entre a montanha e o resto do reino. A este esforço somaram-se editores de renome, desde a Casa Havaneza e a Casa Proença & Companhia, até nomes como José de Lemos e António José Gomes.
Por fim, não podemos esquecer o homem por detrás do “Barbichas”. A sua ambição comercial estendeu-se à produção de peças de porcelana de alta qualidade na Vista Alegre, decoradas com vistas da nossa cidade. Foi um gesto de afirmação: Eduardo da Cruz Melo compreendeu que a Guarda não era apenas um ponto no mapa, mas uma marca de prestígio que merecia figurar nas casas mais distintas do país.
Ao revisitar estes nomes e estas memórias, não falamos apenas de fotografia ou de papel, falamos da alma da Guarda. Resgatar estes pioneiros é garantir que a nossa história continue a ser lida e admirada por gerações. Este artigo reflete sobre a linhagem de fotógrafos que, como Sá e Mello, operaram na Guarda – desde os profissionais de estúdio, mestres do retrato e do acontecimento oficial, até aos fotógrafos itinerantes e editores de postais que transformaram a cidade num fenómeno nacional.
O objetivo é resgatar estas figuras do esquecimento. O século XX traria novos protagonistas, começando pela chegada de João António Ayres dos Reis e a sua “Fotographia Ayres”, na Rua Batalha Reis. Foi um marco da vida regional, ainda que hoje subestimado. Procissões, comícios, acidentes ou retratos de família: nada lhe escapou. Percorria a região com afinco, numa era em que o automóvel era, ainda, um privilégio raro.

José de Castro, restauro fotográfico. Col. Centro Português de Fotografia.

Fotógrafos

– José Sartoris (1841–1901): Foi um conceituado fotógrafo italiano que viveu na cidade do Porto entre as décadas de 1860 e 1870 e particularmente em Coimbra, durante o final do século XIX. Ajudou a criar as bases da fotografia em Portugal e no Brasil, marcando a transição para métodos mais modernos. Está registada a sua passagem pela Guarda.

– Victorino da Fonseca Dias: Esteve estabelecido na casa nº14 da Rua Escura, atual Rua da Fraternidade, com o seu “Atelier Fothografico de Victorino da Fonseca Dias”.

Foto: Mário Novais

– Eduardo Knoff: Em1880, e ainda em 1890, há conhecimento de se encontrar estabelecido na Rua Escura como fotógrafo. Sabemos, pelo registo familiar do nascimento de uma filha na Guarda, nos finais da década de 1880, que a cidade foi um ponto de passagem – ou talvez de fixação temporária – na trajetória deste profissional.

– Francisco Paino Perez: Foi um fotógrafo de origem espanhola que desenvolveu atividade profissional em Portugal, estando a sua presença na Guarda documentada a partir de 1900. As suas coleções fotográficas são consideradas importantes «janelas do tempo», pois documentaram a paisagem urbana, as cidades e os seus habitantes de uma forma que influenciou gerações posteriores de fotógrafos e editores de postais ilustrados.

Foto: Aurélio Paz dos Reis. Restauro fotográfico.

– José Zagalo Ilharco: Nasceu na cidade de Lamego e faleceu em 1910, no Porto, repentinamente, aos 50 anos de idade. Fixou residência naquela cidade, onde se tornou um bem-sucedido homem de negócios, tendo-se dedicado ainda, nos seus tempos livres, a diversas atividades, com destaque para a fotografia amadora e a floricultura, interesses que partilhava com o seu amigo Aurélio Paz dos Reis. Na região, registou sobretudo a Guarda e Avelãs da Ribeira.

– Aurélio Paz dos Reis: Foi o pioneiro do cinema português. Nasceu no Porto em1862 e morreu também nessa cidade em 1931. Foi o criador da primeira empresa que houve em Portugal para a expansão de flores e sementes. Fotógrafo amador, Aurélio da Paz dos Reis conseguiu reunir uma coleção enorme de aspetos citadinos, acontecimentos públicos, festas, etc. Associou-se ao comerciante portuense António da Silva Cunha para a exploração do cinema e projeção, com a qual rodou uma série de pequen

Foto: João António Ayres dos Reis. Restauro fotográfico.

os filmes, que exibiu em Portugal e no Brasil. A presença de um fotógrafo com o perfil de Aurélio Paz dos Reis na região, durante a primeira década do século XX, ilustra a circulação de intelectuais e artistas pela Guarda que trouxeram uma estética mais moderna e um olhar atento às transformações da época.

 

– José Osório da Gama e Castro: Fotografo amador (1856-1923), era filho de José Osório da Gama e Castro (1818-1877), de Nespereira, e de Albina de Oliveira Baptista (1819-1903), de Arcozelo. Foi Procurador na Junta Geral do Distrito, administrador do Concelho, Delegado do Procurador Régio, Presidente do Tribunal Administrativo da Guarda, Governador Civil, da Guarda, Deputado das Cortes e Desembargador da Relação de Lisboa. Retratou paisagens, retratos de família, retratos de gru

Casa da Mata (1909). Cliché Clemente José Gomes, que foi também autor do projeto.

po e também de retratos de pessoas de classe mais humilde, que poderiam ser trabalhadores e/ou empregados da família. Essencialmente, são imagens da cidade da Guarda e da região de Gouveia no princípio do séc. XX, bem como de alguns lugares do seu termo, nomeadamente Nespereira, Arcozelo da Serra, Melo, São Paio, Nabainhos e Moimenta. Mostra também alguns dos monumentos mais emblemáticos da região.

– Clemente José Gomes: Filho de Manuel Clemente Gomes e Ana Teresa João,
nasceu na freguesia da Vela, concelho da Guarda, a 15 de maio de 1860. Veio a ser técnico de engenharia da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Foi uma personalidade central na construção civil e infraestruturas da cidade na mudança do século XIX para XX. Foi um fotógrafo amador, mas de grande valor, a quem se devem muitas imagens da Guarda e da região.

* Investigador da história local e regional

Sobre o autor

Francisco Manso

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