Opinião de Fidélia Pissarra: Tanta “positividade” também pode magoar A infelicidade existe, o fracasso também. Em vez de os iludirmos, mais valerá, a nós e a eles, explicar-lhes isso muito bem.

Escrito por Fidélia Pissarra

A maioria de nós (parece que os que nasceram antes de 2000 continuam a ser mais do que os que nasceram depois, por isso, sim, somos a maioria) cedo foi confrontada com os próprios limites. É certo que umas vezes com mais razão do que outras e, quem nunca levou com um “não te metas nisso” atirado de chofre, que atire a primeira pedra. Claro que, em exagero, terá até tolhido as pernas a um ou outro, mas estou em crer que na generalidade dos casos teve o efeito esperado: mostrou-nos as nossas fronteiras e impediu que nos estatelássemos na frustração de não sermos capazes disto ou daquilo. Por isso, tenho cá para mim que esta nova mania de incutir na criançada – e nos menos crianças – que o céu é o limite, devia começar a preocupar-nos.
É que, por este andar, tarda nada quaisquer duas pernas e dois braços nascem convencidos de que podem tudo e com tudo. Desde que se empenhem muito em querer ser e ter o que quer que seja, dizem-lhes, é suficiente para serem felizes. O problema é quando a ficção começa a esbarrar com a realidade sem a garotada perceber como e porquê, já que a partir de uma moda, um tanto ou quanto esquisita, foram sendo convencidos que, quando não são excecionais, têm estatuto de príncipes e princesas. Ora, sendo uma dessas duas coisas, acabam, inevitavelmente, a traduzi-las à letra e, quando não se consideram fenomenais, julgam-se no direito de usufruir de todas as prerrogativas inerentes à realeza. Sentem-se fenomenalmente inteligentes e lindos como os príncipes e princesas dos contos de fadas. Claro que, com isso tudo, acabam a dizer-lhes que o que mais têm a fazer, além de viver, é agradecer ao divino tanto atributo e predicado sendo felizes. Seja lá o que isso for e como for. E eles acreditam.
Depois, não nos podemos admirar que, por uma coisa ou por outra, os infelizes e os muito infelizes não parem de aumentar. Isto porque ninguém é assim tão bom em tudo o que é suposto que seja, nem assim tão bonito como também querem que se suponha. E assim é que está bem, falta é convencer as novas gerações que não têm, nem precisam de ter, que andar armados em seres perfeitamente felizes por, aparentemente, não terem nada que os faça, pelo menos parecer, o contrário. A infelicidade existe, o fracasso também. Em vez de os iludirmos, mais valerá, a nós e a eles, explicar-lhes isso muito bem. Talvez assim os ajudemos a enfrentar o fracasso com naturalidade e a perceber que não é a excepcionalidade ou a vulgaridade que os define como melhores ou piores. Desde logo porque, tanto o conceito de excecional como o de vulgar, serão sempre tão subjectivos como o de felicidade. Por isso, a bem da sanidade mental da nossa criançada, e menos criançada, o melhor que faremos será mas é recuperar o velho “não te metas nisso, que isso não é para ti”.

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Fidélia Pissarra

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