Há edifícios que, pela sua presença física, pela sua carga simbólica e pelo papel que desempenharam na vida coletiva, deixam de ser meras construções para se converterem em verdadeiros lugares de memória. São espaços onde a arquitetura se cruza com a história, onde as gerações reconhecem fragmentos da sua própria identidade e onde a passagem do tempo não apaga, antes reforça, o significado que lhes foi atribuído pelas comunidades. O Hotel Turismo da Guarda pertence, sem dúvida, a essa categoria singular de património material e imaterial (www.ointerior.pt/sociedade/hotel-de-turismo-da-guarda-o-que-nasce-torto-tarde-ou-nunca-se-endireita/).
Desde a sua inauguração, em 1947, até ao seu encerramento em outubro de 2010, o Hotel Turismo constituiu muito mais do que uma unidade hoteleira. Foi uma afirmação de modernidade numa cidade marcada pela altitude, pela interioridade e por uma longa tradição de resistência e afirmação territorial.
A sua génese inscreve-se numa época em que a política de obras públicas procurava dotar o país de infraestruturas capazes de promover uma ideia de progresso e de coesão territorial. Associado ao traço arquitetónico de Vasco Regaleira e enquadrado na visão modernizadora então defendida pelo ministro das Obras Públicas Duarte Pacheco, o edifício representou uma aposta na capacidade do interior português para acolher visitantes, afirmar a sua paisagem, valorizar os seus recursos naturais e projetar uma imagem de dignidade e hospitalidade.
O encerramento da unidade, em outubro de 2010, constituiu, por isso, uma perda profunda para a cidade. O apagar das luzes daquele edifício emblemático não significou apenas o fim de uma atividade empresarial; simbolizou também a interrupção de uma presença marcante na vida quotidiana da Guarda. O imóvel viria a ser adquirido pelo Turismo de Portugal em 2011, iniciando-se então um longo período de expectativas, projetos anunciados e sucessivas tentativas de recuperação que, por diferentes razões, não chegaram a concretizar-se.
Durante estes anos foram equacionadas diversas soluções para devolver vida ao edifício: a instalação de uma escola de hotelaria, a integração em programas de valorização patrimonial como o REVIVE, concessões a operadores privados, reabertura como Pousada de Portugal e outras possibilidades de exploração turística. Contudo, entre procedimentos administrativos complexos, concursos sem resultados efetivos, alterações de estratégia e dificuldades de investimento, o tempo foi passando e o antigo Hotel Turismo permaneceu como uma presença silenciosa no coração da cidade.
É neste contexto que o recente anúncio relativo ao futuro do Hotel Turismo da Guarda assume uma importância particularmente significativa. A escolha do Grupo The Lince Hotels representa uma nova etapa na longa história deste imóvel. Sobre o novo operador recai agora a responsabilidade de recuperar um património arquitetónico de elevado valor simbólico, conciliando a preservação da sua identidade histórica com as exigências de uma hotelaria contemporânea, competitiva e orientada para novos públicos. Voando a partir dos Açores, os hotéis Lince têm no histórico Mosteiro de Santa Clara, em Vila do Conde, uma das referências do grupo. Com uma requalificação modelar, é um exemplo de como se pode renovar a vida de um magnífico edifício, de traços neoclássicos e simetria exímia, e que deixa grandes expetativas para o futuro do Hotel Turismo da Guarda – o Hotel The Lince Santa Clara é uma unidade de 5 estrelas, com dois restaurantes, um, o “Oculto”, já com duas estrelas Michelin, com a assinatura do chef Vítor Matos.
Depois de várias tentativas falhadas, esta oportunidade surge carregada de expectativa, mas também de uma responsabilidade acrescida perante a cidade e perante a memória coletiva associada ao edifício. Naturalmente, a prudência recomenda que o entusiasmo seja acompanhado pela exigência de resultados concretos.
Se a promessa de Pedro Machado se concretizar e a unidade voltar a abrir as suas portas em breve, não estaremos apenas perante a inauguração de um hotel renovado; estaremos perante a recuperação de um símbolo coletivo, de uma memória partilhada e de uma parte essencial da própria identidade guardense.
Porque recuperar o Hotel Turismo da Guarda é, em última análise, muito mais do que reabilitar paredes: é devolver à cidade um lugar onde passado, presente e futuro possam novamente encontrar-se.


