Opinião CUF de Pedro Samuel Dias: Cancro da próstata: tratar melhor, tratar de forma diferente

Escrito por Pedro Samuel Dias

Em Portugal, o cancro da próstata é o tumor maligno mais frequente no homem. A sua incidência tem vindo a aumentar, sobretudo pelo envelhecimento da população, mas também pela maior utilização da análise do PSA (antigénio específico da próstata), que permite identificar a doença em fases mais precoces. Este aumento não traduz necessariamente mais casos ou uma maior agressividade dos tumores, mas antes uma capacidade de diagnóstico reforçada.
Ao longo dos anos, tornou-se claro que o cancro da próstata não é uma doença única. Existe um espectro muito alargado, desde tumores indolentes, que podem nunca ter impacto clínico, até formas biologicamente mais agressivas. Esta heterogeneidade obriga a uma abordagem cada vez mais individualizada.
Hoje, a estratificação de risco é central na decisão terapêutica. Com base no PSA, no resultado histológico e na ressonância magnética multiparamétrica, conseguimos definir com maior precisão o comportamento da doença e ajustar a estratégia a cada doente.
Nos tumores de baixo risco, em doentes criteriosamente selecionados, a vigilância ativa é uma opção segura e cada vez mais utilizada. Permite evitar tratamentos desnecessários, mantendo um controlo rigoroso da doença e preservando a qualidade de vida.
Quando há indicação para tratamento com intenção curativa, a prostatectomia radical e as várias modalidades de radioterapia continuam a ser pilares fundamentais. A cirurgia evoluiu significativamente, com a disseminação da abordagem minimamente invasiva e, em particular, da cirurgia robótica, que permite maior precisão e melhor preservação das estruturas responsáveis pela continência urinária e pela função sexual. No campo da radioterapia, para além das técnicas externas modernas, a braquiterapia prostática – que consiste na aplicação de radiação diretamente na próstata – continua a ser uma opção altamente eficaz em doentes selecionados.
Em casos bem definidos, começam também a ganhar espaço as terapias focais, como a crioterapia ou o HIFU, que procuram tratar apenas a área tumoral, reduzindo efeitos secundários – embora ainda com indicações criteriosas.
Nos casos de doença avançada, a terapêutica hormonal mantém-se como base, mas foi profundamente transformada pela introdução de novos agentes hormonais e pela integração precoce de outras terapêuticas sistémicas, com impacto claro na sobrevivência.
Na prática clínica, percebe-se que a decisão não é apenas técnica. É também humana. Cada doente traz consigo expectativas, receios e prioridades diferentes. E é nesse equilíbrio entre eficácia oncológica e qualidade de vida que reside, hoje, o verdadeiro desafio.
Se há uma mensagem a reter, é esta: o cancro da próstata continua a ser frequente, mas nunca tivemos tantas ferramentas para o tratar bem – e, cada vez mais, para tratar melhor cada pessoa de forma diferente.

* Urologista no Hospital CUF Viseu

N.R.: Esta secção é uma colaboração mensal do Hospital CUF Viseu, na qual os seus profissionais partilham conselhos e dão dicas sobre saúde.

Sobre o autor

Pedro Samuel Dias

Urologista do Hospital CUF Viseu

Deixe comentário