Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Livros sagrados

Como o trabalho de exegese dos textos sagrados é obra nunca terminada, continua esta semana o aturado esbulho interpretativo do comunicado publicado em redes sociais e atribuído a Cristiano Ronaldo.

No primeiro capítulo, observámos como Cristiano Ronaldo, um Pelé europeu, um Maradona desintoxicado, não aceita a sua decadência humana porque não acredita na sua própria humanidade. Jesus (o da Amadora) é o Prometeu insolente que roubou o fogo (a qualidade do futebol) à divindade e o ofereceu aos homens comuns (os outros jogadores). Ronaldo crê ser Zeus. E Zeus não aquece. Zeus faz birra quando o contrariam. (Zeus usa o seu poder para violar e engravidar várias mulheres, mas no comunicado não há referências a essas façanhas divinas.)

Ronaldo é Jeová no Monte Sinai, mas Jesus (o da Amadora) não quis ser Moisés. As Tábuas da Lei (com a apropriada menção “não terás outros deuses além de mim”) foram entregues por Deus ao profeta. Mas Jesus (o da Amadora) recusou-se a ler a sua sujeição aos mandamentos da divindade.

A inclusão no comunicado das notas que Jesus (da Amadora) deveria ter lido são como a peça dentro da peça no teatro de Shakespeare e o aquecimento de Ronaldo é o solilóquio de Hamlet. «Ser ou não ser convocado, eis a questão». A selecção nacional, julga Ronaldo, é Ofélia. Sem a sua atenção e com a morte do pai, Ofélia sente-se incapaz e sucumbe à loucura, afogando-se no rio e em eliminações precoces.

Note-se o paralelismo que, embora ausente explicitamente do comunicado, impregna intencionalmente a parrésia da narrativa: Jesus (de Nazaré) e Jesus (da Amadora) terminam gritando, em agonia, incrédulos com a aparente desistência do Senhor: «Meu Deus (Nosso Capitão), por que me abandonaste?». O Senhor, como o Novo Testamento relata, não abandonou o seu povo. E consta nas profecias que Jesus voltará à Terra para trazer a paz aos homens e à selecção nacional.

Há, no comunicado, um diletantismo desconstrucionista da metafísica da presença. O autor apresentado como Cristiano Ronaldo afirma que nunca se intromete em decisões de comando, mas comporta-se à patrão. Como nos ensinou Derrida, a desconstrução evidencia as hierarquias, corrompendo-as para as desestabilizar.

Jane Austen usava a ironia como modelo simplificado da desconstrução de uma sociedade pré-industrial que limitava as mulheres da burguesia e da pequena fidalguia ao matrimónio. No comunicado, o texto atribuído a Cristiano Ronaldo usa, embora já sem ironia, a mesma fórmula: é uma verdade universalmente reconhecida que um treinador sozinho na posse de uma bela equipa necessita de uma grande estrela.

 

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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