Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: O fim de uma civilização

No início da semana, no mesmo dia, a Alemanha de Martinho Lutero e a Holanda de Erasmo viram as suas aspirações vitoriosas terminar em pontapés falhados a onze metros do alvo. Nesse dia, além da germânica, também a senda japonesa foi interrompida. No entanto, ao contrário de 1945, não foram os aliados do Atlântico Norte que cometeram esse feito. Foram países do Sul Global. Marrocos, que em 2022 já houvera vingado Ceuta de uma assentada, tem a característica bipolar de ser um país do tal Sul Global, mas um país do Norte de África.
As derrotas dos filhos de Vermeer e Hegel nos penáltis são a face mais visível do declínio da Europa. Não há como esconder que os herdeiros de Sófocles e Séneca, nem sequer foram autorizados a participar neste torneio onde estão presentes um quarto dos países do mundo. Dirá o leitor mais espertinho que não foram qualificados. Com certeza terá as suas razões para isso, mas o meu ponto de argumentação é que no mundo clássico nada se fazia sem Roma e sem Atenas.
O mundo de hoje é o mundo em que a Alemanha perde para Portugal um lugar no Conselho de Segurança da ONU e para o Paraguai um lugar nos oitavos de final do Campeonato do Mundo da FIFA. Diga o leitor se isto não é o fim de uma civilização. Se não for, não precisa de dizer nada.
Dirão os cépticos, porque hoje já ninguém sabe estar calado, que isto é apenas futebol. Mas não é nem apenas futebol, nem futebol é assunto menor. A Alemanha vai em três edições do torneio da FIFA que não chega aos oitavos de final, duas guerras mundiais que não passa de Paris, e já ninguém lê Hegel e ouve Bach. Os contos de fadas negros e tortuosos dos povos da Europa Central recolhidos pelos irmãos Grimm foram estraçalhados pelo optimismo irritante norte-americano do capitalismo empresarial da Disney.
Na madrugada de sexta-feira, esperemos que o sentido de comédia de Cervantes, que faz do seleccionador espanhol uma espécie de Dom Quixote, quer quando imagina estar perante o que mais ninguém vê, quer nos resultados patéticos que obtém, seja trocado pelo lirismo de Camões nas botas de Fernandes e companhia, e não seja ofuscado pelos herdeiros do pragmático realismo literário de Miroslav Krleža.

* O autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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