Se cada eu fizer a sua revolução individual, consumir menos, reduzir emissões, escolher beneficiar os animais, optar por comer de modo regrado, evitar os conflitos interpessoais, respeitar mais o outro, abdicando mesmo que de modo ténue de parte do eu, estamos na messiânica mensagem bíblica e talvez até de todas as religiões. O coletivo existe para evangelizar e a evangelização é o mote das guerras. A escolha individual respeitada pelos coletivos permite excentricidade e extravagância. O choque de todos os exageros de liberdade é a formalidade de uma parede entre células de um tecido. Tudo se define nesta questão jurídica: encontrar o lugar onde o individualismo prejudica o bem dos outros. Temos de chegar a Claus Roxin (Alemanha 1931-2025) para começar a entender este ponto, onde a conduta do indivíduo cria ou incrementa um risco proibido pelo ordenamento, aqui, a sua liberdade cede e o resultado danoso pode ser-lhe imputado criminalmente. A liberdade individual, mais que o conceito de liberdade, carecem de uma gestão administrativa. Eu não posso obrigar-te que penses como eu. Eu não posso obrigar-te que compres o mesmo que eu. Eu não posso exigir que vivas como eu. Mas tu não podes fazer o ruído que te aprouver, nem ser delinquente no espaço público.
Começa a batalha do direito sobre a importância do eu, ou os limites deste eu feroz e publicitado, sobre a esfera pública, sobre a humanidade como tecido. Ronald Dworkin (EUA 1931-2013) e Robert Alexy (Alemão 1945 – ) definem uma das grandes discussões sobre a colisão do indivíduo contra outro e o público. Tratar estes conflitos é uma necessidade do devir próximo. A forma como interpretamos ou julgamos o confronto faz a diferença.


