Na literatura, há uma regra não escrita sobre clássicos instantâneos: não existem. A arte necessita de tempo para a sua canonização e posteridade. Foi por isso que aguardei uma semana para comentar o comunicado de Cristiano Ronaldo aos portugueses. Depois dos debates epistemológicos sobre a ontologia do perdão e do abandono, veio o tempo da exegese.
Tal como os textos sagrados, este comunicado traz consigo questões autorais. Quem é o autor das palavras? O comunicado é atribuído a Cristiano Ronaldo, como os Evangelhos são atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João. É uma atribuição simbólica, sem que saibamos exactamente quem são. O que sabemos é que tal como Cristiano Ronaldo, Jesus de Nazaré (não o da Amadora) teve uma incrível equipa de Relações Públicas.
Poemas épicos, como “A Odisseia” ou “Os Lusíadas”, invocam as divindades para que a história possa ser contada. «Fala-me, Musa, do homem versátil que tanto vagueou» e «E vós, Tágides minhas (…) dai-me igual canto aos feitos da famosa gente». O autor conhecido por Cristiano Ronaldo dispensa a invocação. Ronaldo, que se julga ao nível dos titãs, não precisa da autorização nem da inspiração de musas e deuses. (Parece ter uma certa apetência por ninfas, mas isso são contas de outro processo.)
A teoria literária ensina-nos que os épicos clássicos apresentam uma estrutura narrativa conhecida por “media res”. Quando a narração começa, já os heróis vão a meio da aventura. Neste comunicado, o autor que assina como Cristiano Ronaldo assume também que o herói está no meio da jornada na selecção nacional. Vinte anos já se passaram (como Ulisses fora de Ítaca) e o seu regresso para tomar as rédeas do reino é aguardado por muitos, especialmente por Penélope, o presidente da Federação. Obviamente, os pretendentes como Gonçalo Ramos vão esperando na sala de banquetes. Ronaldo tenciona, como Ulisses, matar um por um quando regressar. Sabemos também que Ronaldo encetou viagem para a Arábia com a bravura de Agamémnon, a audácia de Aquiles e o ardil de Ulisses para conquistar a tão desejada Tróia (o título da Liga Saudita), que só o alcançou com de Jesus da Amadora (não o de Nazaré), mas que o regresso do herói é uma jornada solitária. Jesus (o da Amadora) terá de ser sacrificado pelas sereias ou pelos ciclopes como Jesus (o de Nazaré) foi pelo Sinédrio e por Roma. Ronaldo – e a humanidade como sua metonímia – limpam-se do pecado original pela redenção sacrificial.
Joseph Campbell escreveu sobre as estruturas narrativas das mitologias universais num livro intitulado “O Herói das Mil Faces”. No comunicado publicado nas redes sociais digitais de Cristiano Ronaldo, o arco narrativo configura Ronaldo como o herói dos mil golos. Mas o abandono da selecção é a jornada final que o protagonista não quer aceitar. Como nos explicou Karl Jung, o comunicado confronta a persona de Ronaldo com a sua própria sombra. Sem as ferramentas arquetípicas para se manter no Olimpo, Ronaldo recusa o destino de Obi-Wan Kenobi – outrora o melhor guerreiro do planeta (“puer aeternus”), hoje um sábio reformado (“senex”).
(continua)
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


