Opinião de Fidélia Pissarra: Num mundo ao contrário

Escrito por Fidélia Pissarra

Tão meiguinho vai este outono que a sala de aula não poderia ter melhor temperatura do que a que cercava a pequena dúzia de estudantes e os dois professores. Sem frio, nem calor, conversa para cá, conversa para lá, a propósito do 5 de Outubro, a aula desemboca nos “dias especiais”. Nome que aqueles jovens de 16 anos decidiram atribuir aos feriados. Segundo eles, deveria haver mais feriados, perdão, “dias especiais”. Feriado, por nunca estarem lá muito certos do que significa ou o que comemora, como no caso o 5 de Outubro, ao contrário do “dia especial”, não lhes diz grande coisa. Para eles, segundo os próprios, o importante dos feriados, “dias especiais”, é não haver escola. Não que se sintam mal na escola ou não gostem dela, mas se não houver, para eles, é melhor.
Penso, então, se não pensarão assim por passarem horas e horas a ouvir o que os professores tanto parecem ter para lhes dizer. Ou, quando assim não é, se por poderem passar horas a pesquisar, a criar, a escrever ou a gravar trabalhos que acabarão esquecidos numa pasta ou plataforma de ensino, depois de analisados e avaliados pelos mesmos professores. Sem público ou propósito, além da simples conclusão e avaliação da atividade, qualquer projeto, por mais criativo que tente ser, não passará de mais uma tarefa sem valor que se veja. Quando os alunos sabem que além do professor mais ninguém verá, ouvirá ou utilizará o que criaram, perde significado a atividade e diminui-se o papel da escola.
Depois lembro-me dos protestos, contra a falta de professores, de climatização adequada das salas de aula, de turmas exageradamente grandes e falta de tantas outras condições nas escolas, dos seus colegas franceses e volto à estaca zero. Tal como, por muito que especule, acontece quando ouço os que encontram nas desigualdades que dizem haver na sociedade francesa a razão dos protestos estudantis. Acontecendo-me exatamente o mesmo quando cogito em todos os paradoxos dos atuais clamores dos vários setores da sociedade: empresários ultraliberais reclamam apoios do Estado; promotores da guerra desejam prémios da paz; a ignorância é motivo de orgulho e o bom senso criticado por todos. Aliás, neste mundo, em que tudo parece andar tão mal distribuído, a única coisa que me parece andar bem disseminada será mesmo a estupidez.
O que, como bem se sabe, é bem pior do que se fosse a ignorância, a doença ou a pobreza a andar por todo o lado. Com qualquer dessas, podíamos nós bem. Uns livritos, uns remédios e uns apoios sociais chegavam para dar cabo das três. Mas contra a estupidez, seja ela a dos estudantes que desperdiçam as boas condições que têm para aprender, seja ela a dos estudantes que partem tudo e todos por, alegadamente, quererem aprender e não lhes darem condições é que ninguém pode. Principalmente quando todos eles começarem a votar nos que lhes prometem soluções à medida dos seus desejos sem, sequer, desconfiar onde pretendem que se vão enfiar.

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Fidélia Pissarra

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