Editorial de Luís Baptista-Martins: Que cidade é esta (a Guarda)?

Em 1999 escrevi no jornal “Viajar” um retrato do que então sentia na relação da Guarda com os turistas, depois de uma curta conversa com visitantes: «Um casal holandês chega à Guarda vindo de Vilar Formoso. Vêm de carro, depois de uns dias entre Burgos e Salamanca, com visita a Ciudad Rodrigo e a La Alberca. Chegam pelo IP5 à descoberta de uma cidade com 800 anos. Sobem pela velha Nacional 16 e param junto à Capela do Mileu, para um retrato rápido junto de uma estação arqueológica descaraterizada e pobre. Sobem por entre curvas até ao centro da cidade. Têm dificuldades em estacionar, numa cidade cheia de carros, mas com pouco para visitar: faltam museus, um centro de interpretação da história da Guarda, uma judiaria relevante e bem tratada, monumentos limpos e atrativos, um centro histórico com vida, artistas na rua, lojas de artesanato, cultura, teatro de rua, música em cada esquina, casas recuperadas e vida – pessoas, crianças a brincar na rua, sorrisos cativantes, alma sedutora para além do cinzentismo habitual de que Miguel de Unamuno falava.  Vão calmamente pelos passeios apertados da Rua do Comércio e sentem o desalento de lojistas em crise, chegam à Praça Velha e param, fazem uma fotografia memorável à Sé, onde tentam entrar sem sucesso porque a porta está fechada. Seguem pela Rua Direita por São Vicente a dentro, sentem a cidade velha moribunda e vão embora. Não beberam sequer um café. Não ficaram para jantar ou dormir. Seguiram viagem. A Guarda ficou para trás e não a recomendam».
Desde então muita coisa mudou. Ou talvez não. Os holandeses passaram a ser neerlandeses e já não se chega à Guarda pelo IP5, temos a A25 e a A23, mais rápidas para trazer ou levar as pessoas daqui para fora… A porta da Sé passou a estar aberta para receber peregrinos, crentes ou turistas, mas o centro da cidade tem menos pessoas. E já não temos o Sud-Express que trazia europeus de comboio (que ficavam na estação à espera de um milagre de transporte para os trazer ao centro da cidade, tal como hoje).
Durante os anos seguintes à publicação deste e outros textos reflexivos de prostração e profunda inquietação pelo fado da cidade, houve alguns momentos de alento e otimismo. Houve instantes em que a metamorfose parecia acontecer: a presidência da Câmara da Guarda de Maria do Carmo Borges teve ápices de audácia, mudança e ambição; o Américo Rodrigues marcou a história contemporânea da cidade, deu dimensão cultural e alma a uma cidade clerical enclausurada no passado, quase conseguiu pôr a Guarda no mapa da modernidade; o João Mendes Rosa viu a Guarda no centro do mundo, sem medos ou preconceitos, afirmando a arte como agente de desenvolvimento: a cultura como a única forma de mudar o mundo, o nosso mundo. Houve ainda alguns outros raros momentos de rutura ou, pelo menos, a sensação que alguma coisa estava a mudar. Mas foi sempre pouco, muito pouco.
A estranha história do Hotel Turismo é paradigmática de como as coisas acontecem na Guarda. O maior hotel da região leva 15 anos fechado e, depois de muitas promessas de reabertura, ninguém acredita que vai voltar a ser um marco no turismo e desenvolvimento regional. Vai ser lançado mais um concurso, mais uma tentativa de recuperar o que parece irrecuperável. Que bom seria poder dizer o contrário…

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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