Cara a Cara

«O cliente que aprecia vinho gosta cada vez mais de ser surpreendido»

Vini (1)
Escrito por ointerior

P – A Vinilourenço recebeu, uma vez mais, uma distinção no Concurso de Vinhos do Douro Superior, a de melhor tinto com o “Avô Escrivão”. O que significa este reconhecimento?
R – Recebemos este prémio com felicidade. É sempre bom ver o nosso trabalho e a qualidade reconhecida, ainda por cima num concurso destes, onde estão os melhores vinhos do Douro Superior. Ser distinguido como o melhor tinto, sem dúvida que é bastante importante para nós. Isto funciona com os tais barómetros: o principal são as vendas, mas para haver vendas tem de haver este reconhecimento, que acaba por ser na grande maioria pessoal. E este tipo de concursos com anotações e classificação de críticos ajuda mais tarde para conseguir um bom resultado comercial.

P – Está numa região onde há muita concorrência no setor dos vinhos, como é que se distinguem dos demais?
R – Nós tentamos distinguir-nos pela diferenciação de alguns vinhos e estilos de vinhos que temos. Neste caso foi o “Avô Escrivão”, que é um dos nossos topos de gama, e acredito que a distinção da ViniLourenço tem muito a ver com esta aposta, não só naquilo que é mais comum – o Douro. Nós estamos numa zona de transição de altitude, onde temos vinhas em zonas baixas, em Foz Côa, no Pocinho, o mais tradicional do Douro, e também no Poço do Canto e na Mêda. Nessa zona temos solos de transição de xisto para granito e isso dá vinhos bastantes diferentes e que cada vez mais estão na moda – são mais frescos, mais aromáticos, não tão estruturados, não tão alcoólicos para serem considerados grandes vinhos, e isso é notável nos brancos, essencialmente, embora nos tintos também começa a existir esta tendência.

P – No que toca às vendas e produção da ViniLourenço, como está a situação?
R – O setor está apreensivo. Em 2024 tivemos um ano complicado até meados do ano e equilibrou na fase final. No nosso caso, conseguimos subir as vendas. Sei que com a grande maioria dos produtores não foi tanto assim, principalmente quem trabalha gamas mais baixas e com grandes superfícies. O nosso portefólio é misto, mas tentamos trabalhar mais os segmentos de qualidade e esse setor não teve tantos problemas. É verdade que vem o final do ano e o Natal, que ajudam a equilibrar para que o ano seja positivo. Até esta fase mantém-se essa tendência. Analisando o primeiro trimestre vendemos menos garrafas, mas em volume de faturação de valor está idêntico ao ano anterior. Esta é a nossa realidade, não sei exatamente a dos restantes produtores. Percebemos que é um setor que começa a estar em crise e isso foi notório no ano passado, na vindima, porque a maior parte dos agentes económicos não quiseram comprar uvas, pelo que foi mais para as cooperativas encherem-se de stocks (e toda a gente se queixa dos stocks).

P – E no que toca às exportações?
R – Temos crescido de forma geral, mas mais no mercado nacional. A exportação está a acompanhar a tendência, mas não temos tanta como desejávamos. Há novos mercados, foram períodos complicados, a Covid provocou a diminuição da exportação na grande maioria dos países onde estávamos. Noutros, como é exemplo do Brasil, na pandemia e no pós-Covid as exportações até cresceram, mas a grande maioria dos mercados baixou – como a China. Estamos presentes na maior parte dos países da Europa, mas a tendência também foi abrandar. A Suíça cresceu bastante, só que noutros mercados, como a Bélgica, França, Dinamarca, houve ligeiros abrandamentos e estamos a reunir esforços, a tentar antecipar esses problemas, a abrir novos mercados e arranjar novos parceiros para colmatar isso.

P – Que novidades podemos esperar da ViniLourenço para os próximos tempos?
R – Novidades há sempre. Temos uma vasta gama de monocastas e algumas coisas quase exclusivas, como é o caso do casculho, um vinho exclusivo que nunca ninguém produziu. No entanto, isso são coisas que já foram lançadas e estão no mercado, mas haverá novas colheitas, sem dúvida. Este ano elevámos a fasquia porque lançamos uma edição especial de “Pai Horácio”, o vinho que fiz em homenagem ao meu pai. É um Grande Reserva 1945, o ano do seu nascimento. Felizmente, foi um vinho bastante bem pontuado e já eleva a fasquia, pois o preço PVP é de 150 euros a garrafa. Esse, sem dúvida, que será o marco especial do que a ViniLourenço vai lançar em 2025. Há também a vontade de produzir um tinto de monocasta que não lançamos desde 2016, uma vez que há clientes a pedir. O mercado também nos vai pedindo coisas novas e essa diferenciação. O cliente que aprecia vinho gosta cada vez mais de ser surpreendido.

 


 

Perfil

Jorge lourenço

Vencedor do melhor vinho tinto no Concurso de Vinhos do Douro Superior

Idade: 44 anos

Naturalidade: Poço do Canto (Mêda)

Profissão: Gestor da ViniLourenço e enólogo

Currículo (resumido):Terminou o ensino obrigatório (12º ano) e, com a ajuda do pai, apostou no projeto de Empresários Agrícolas (Jovens Agricultores). Mais tarde criou a Vini Lourenço.

Hobbies: Estar com amigos e família

Sobre o autor

ointerior

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