P – Apresentou recentemente o seu novo livro, “A Mutação Mediática Anunciada”, de que trata?
R – Trata-se de uma antologia das crónicas que publiquei em fins do século XX e princípios do século XXI sobre a transição que se estava a operar nos setores dos média, da informação e do jornalismo. Era uma época em que se sentiam já claramente as consequências da imprensa ter deixado de ser uma produção industrial pesada, o que favorecerá a multiplicação de jornais e magazines, e em que a rádio, como a televisão, tinham também deixado de viver em regime largamente dominado pelo monopólio público. E isto também quando a introdução progressiva da informática e da digitalização revolucionou profundamente as condições de produção dos média, como da informação.
P – O que tem mudado nos media e quais as consequências dessa mutação?
R – O que tem mudado, em primeiro lugar, é a tecnologia e, por conseguinte, as condições de produção dos média. O que provocou uma gigantesca proliferação dos média, sobretudo percetível em matéria de rádio e de televisão. O que, para além das vicissitudes que têm caraterizado a vida económica e financeira, provocou uma fragilização da economia dos média, as receitas de cada um têm evidentemente diminuído porque partilhadas entre muitos. A conjunção destas evoluções da tecnologia e da economia levaram a mutações de fundo e até mesmo radicais na conceção dos conteúdos dos média, a concorrência cada vez mais assanhada entre média acentuou-as no sentido de uma certa perda de qualidade do que é proposto aos cidadãos.
P – Como vê o futuro da comunicação social?
R – No que diz respeito à informação, viveremos cada vez mais numa sociedade de certo modo dual, em que haverá numerosos média produzidos a baixo custo, em que a inteligência artificial intervirá fortemente e a emoção e o entretenimento serão ingredientes dominantes. Mas haverá também média preocupados com uma informação jornalística exigente em termos de rigor, perspetivação e análise, cada vez mais indispensável para compreender a complexidade da atualidade no seio de uma sociedade atravessada por jorros contínuos de informações e desinformações com as mais diversas origens e sem que a prática jornalística tenha merecido particular atenção por parte dos seus emissores.
P – A notícia de que a VASP poderá deixar de distribuir jornais e revistas em oito distritos surpreendeu-o? É aceitável? Que país é este em que metade do território nacional pode deixar de ter acesso à informação?
R – Há que ver até que ponto a anunciada decisão da VASP não constitui uma manobra que visa obter novas condições da parte dos editores e, porque não, subsídios da parte do Estado… Dito isto, são as estruturas de base profundamente desequilibradas e anómalas da informação jornalística em Portugal que têm que ser enfrentadas, o que todos os governos da democracia não ousaram fazer, e direi mesmo não quiseram fazer. As estruturas técnicas de base não existem no Portugal do Interior Norte e Centro, nem no Portugal a sul do Tejo, para que possam existir sérios centros de produção a contrapor aos da faixa costeira que vai de Braga a Lisboa. Ora, os média desta faixa costeira não falam da atualidade, nem mesmo do divertimento no resto do país. E os jornais e revistas são vendidos a um preço irresponsavelmente elevado para quem vive nas chamadas “regiões de baixa densidade”. E enquanto estes três aspetos não forem ultrapassados, os jornais terão sempre os mesmos compradores, que pouco ou nada falam da vida quotidiana deles e daquilo que os preocupa ou lhes interessa.
P – A imprensa regional e as rádios locais vivem em crise permanente há algum tempo, que futuro poderão ter nesta mutação mediática?
R – Teria que haver razoavelmente uma concentração de média de modo a fazer-lhes atingir um potencial de leitorado e de audiência mais largo. Seria também desejável que estes média fizessem entrar nas suas estruturas de propriedade associações de leitores/ouvintes/espetadores em situação de minoria, de modo a não poderem utilizá-los como canais de instrumentalização (embora saibamos que, em Portugal, a sociedade civil é pouco estruturada e interventiva). E o Estado deveria compreender então que estes média regionais assumem um papel tão importante quanto os média ditos “nacionais” e as demais instituições culturais ditas também “nacionais”. Mas os média regionais deveriam também dotar-se de verdadeiras estruturas administrativas de modo a poderem seriamente angariar anunciantes, mas também compradores e assinantes.
P – Os jornais voltam a ser “coisa” de elites? Até quando e como poderão sobreviver?
R – Parece-me, infelizmente, uma perspetiva muito provável. Como disse anteriormente, será progressivamente o caso dos jornais que praticarão uma informação de exigência e de rigor. O que supõe a existência de redações numerosas e compostas por jornalistas de indiscutíveis competências profissionais. E a publicidade, que emigrou em massa para as chamadas redes sociais, não será suficiente para sustentar os custos de tais redações…
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Perfil:
Nome: J.-M. Nobre-Correia
Autor do livro “A Mutação Mediática Anunciada”
Idade: 79 anos
Naturalidade: Fundão, mas viveu mais de 45 anos em Bruxelas
Profissão: professor universitário emérito
Obras publicadas: 15 como autor único em francês (9) e em português (6)
Livro preferido: “El Amor en los tiempos del cólera”, de Gabriel García Márquez
Filme preferido: “Il Gattopardo”, de Luchino Visconti
Hobbies: leitura, música, cinema


