P – O que é que a levou a promover esta petição pública pelo Centro Oncológico Regional da Beira Interior?
R – Nos últimos cinco anos enfrentei três cancros e o meu único filho enfrentou um. Percebi que a luta contra a doença não se resume ao diagnóstico: há também questões burocráticas que agravam todo o processo, como as inúmeras viagens para tratamento fora da região e meses de isolamento longe de casa. Pensava que estas dificuldades eram só minhas, até perceber que eram um problema generalizado na Beira Interior. No dia 19 de agosto, aniversário da minha primeira quimioterapia, decidi agir e lancei esta petição para chamar a atenção para o problema.
P – O primeiro objetivo foi atingido com o número de assinaturas necessário para que o assunto seja alvo de uma audiência na Assembleia da República?
R – O primeiro objetivo, as 1.000 assinaturas, foi atingido, tal como o segundo. Com elas, a petição passou a ter direito à publicação no Diário da Assembleia da República e à audição perante a comissão competente. Com as atuais 3.700 assinaturas, mantemos esses direitos.
P – Mas há um novo objetivo que passa pelo debate em plenário na AR?
R – O debate já foi atingido: com 2.500 assinaturas, temos direito a debate obrigatório na comissão parlamentar competente. O nosso novo objetivo é chegar às 7.500 assinaturas, que dão direito a que a petição seja apreciada e debatida em Plenário da Assembleia da República, com a participação de todos os grupos parlamentares.
P – Defende que deverão ser os autarcas da região a representar esta petição, porquê?
R – Já atingimos a etapa que permite a uma delegação de dez pessoas, entre as quais me incluo, representar a petição na Assembleia da República. Defendo que dela façam parte os presidentes de câmara da região, eleitos pela população para os representar, uma vez que o centro oncológico beneficiará todos, unindo-os em torno de um bem comum.
P – Tendo em conta que a eventual concretização desse objetivo será sempre um processo demorado, sabemos que pode haver uma solução intermédia a curto prazo, que é um Gabinete de Apoio ao Doente Oncológico?
R – Sim. Já apresentei este projeto à Câmara Municipal do Fundão e à ULS da Cova da Beira. A ideia surgiu ao identificar um padrão durante a recolha de assinaturas: muitos problemas que não existiriam se o centro oncológico já estivesse em funcionamento. Inspirei-me no sistema «navegante», usado noutros países e associado a maior esperança de vida, por garantir acompanhamento personalizado ao doente oncológico. Dou dois exemplos: um doente sozinho numa consulta difícil pode ser sinalizado ao Gabinete, que recorre a voluntariado para o acompanhar; quem precisa de uma biópsia, mas não tem dinheiro para se deslocar, e não é considerado com insuficiência económica por ganhar o salário mínimo, veria o Gabinete articular transporte e alimentação. Ajudaria ainda a evitar os atrasos de até quatro meses nos atestados multiusos, emitidos em Coimbra, e a sinalizar direitos desconhecidos, como o dístico de estacionamento sem dificuldade motora, além de organizar apoio psicológico, nutricional e domiciliário. A Liga Portuguesa Contra o Cancro faz um trabalho notável, mas este apoio deve ser assegurado pelos municípios e pelo Ministério da Saúde, porque a saúde não pode depender do código postal de cada pessoa. Tem baixo custo: uma equipa pequena, apoiada por voluntariado e pelas universidades da região, que seria também o núcleo do futuro centro oncológico. Sendo especialista na área social, a questão financeira ultrapassa-me, mas as palavras “investimento” e “cancro” não deveriam coexistir na mesma frase.
P – Onde deveria ficar localizado este Gabinete de Apoio e o próprio Centro Oncológico Regional da Beira Interior?
R – Sendo um gabinete de apoio a toda a região, poderia ficar em qualquer município. No entanto, o presidente do Fundão já afirmou publicamente que pretende construir o centro oncológico junto ao centro de diagnóstico já em curso, pelo que faz sentido que fique, numa primeira fase, no Fundão, transitando depois para o centro oncológico. Outra opção seria o Hospital da Cova da Beira, ou a Covilhã, onde estão o hospital e a Universidade da Beira Interior. A escolha prende-se com burocracia: por ter vertente social, e não clínica, o município seria a opção menos burocrática. A questão real está no orçamento: fará sentido um único município assumir sozinho um gabinete que todos usufruiriam? Muitos municípios enfrentam dificuldades financeiras, mas aprovam-se todos os anos orçamentos de milhões. Existe dinheiro para tanta coisa e não para a saúde!
Perfil:
Nome: Magna Lourenço
Idade: 44
Naturalidade: São Sebastião da Pedreira – Lisboa
Profissão: Assistente técnica
Currículo: Licenciatura em Ciências Sociais, com especialização em Intervenção Social; Pós-Graduação em Pedagogia do E-Learning; atualmente Mestranda, com dissertação em curso subordinada ao tema «Ensino Não Presencial para Doentes Oncológicos em Portugal: o Caso do AMIM como Passaporte Educativo». Tenho vinte anos de experiência na área financeira, como técnica de análise e recuperação de crédito, e seis anos na Segurança Social, como assistente técnica.
Livro Preferido: Liberalismo: A Ideia que Mudou o Mundo, de Carlos Guimarães Pinto
Filme Preferido: A Purga (The Purge), porque considero que retrata uma possível forma política de reduzir e selecionar a população, e isso faz-nos refletir.
Hobbies: Considero a política o meu maior hobby. Não faço dela profissão, mas é onde dedico mais tempo, porque considero que, para ajudar as pessoas, é preciso começar pela base, que está na política. Para além da política, gosto de, de forma independente, alimentar animais de rua.



