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«Uma dívida de gratidão»

Acabou finalmente a novela “agarrem-me se não fico” relativa ao putativo candidato PSD à Câmara da Guarda. “Coimbra, Guarda, Coimbra, Guarda, um-dó-li-tá, em Coimbra não me querem, a Guarda será”. À falta de melhor opção, preparando-se para mais quatro anos de sacrifícios, Amaro vai adiar o sonho e preparar-se para se candidatar a levar com muitos guardenses, ingratos, que não entendem a sua forma de gerir uma cidade.

À esquerda o candidato Joaquim Carreira. Tem uma tarefa especialmente difícil contra um adversário que soube dar ao povo o que o povo sempre gostou: festas e romarias.

Atendendo, no entanto, à pesada herança socialista, de quarenta anos, que estagnou a cidade no tempo, Carreira só terá alguma hipótese se conseguir fazer confluir os votos dos descontentes, arranjando uma espécie de geringonça pré-eleitoral, para, dessa forma, poder fazer frente ao animal político. Será uma luta de David e Golias, Mas a condição “sine qua non” passará por evitar, ao máximo, ter na sua lista personalidades ligadas ao “status quo” jurássico do PS. Terá que se rodear de um amplo leque de gente com vontade de trabalhar: independentes, comunistas, bloquistas e, alguns, socialistas da nova geração. Uma lista eclética será a sua única hipótese. Por um lado, receio que os “tubarões” não lhe permitam grandes veleidades. Por outro, Carreira deve impor a SUA lista, pois tem à mão a “bomba atómica” da desistência como candidato, dando, nesse caso, a vitória automática a Amaro, como o fez Igreja no passado. Só tem uma hipótese de fazer a coisa bem feita.

No lado iluminado da Lua, Amaro, retirou, ao fim de décadas, os camiões ruidosos, poluentes e destruidores do piso, do centro da cidade e das urbanizações periféricas e mandou-os ir dormir para a PLIE, tudo isso a custo de feijões; deixou-se de remendos e passou a pavimentar decentemente as ruas da cidade, metódica e gradualmente; aproveitou a baixa de juros e fez um esforço por substituir alguns empréstimos de juros elevados por outros mais favoráveis, ajudando a sustentar a dívida; passou a pagar a tempo e horas, coisa impensável nos executivos “chuchas” e cortou com alguns vícios que grassavam nalguns funcionários camarários, que mais pareciam os “donos daquilo tudo”.

No lado negro da Lua, Amaro falhou em trazer para a Guarda os tão prometidos postos de trabalho às centenas; exagerou nos eventos que, cria, colocavam a Guarda no mapa dos empresários; manteve a sua autarquia nos últimos lugares no Índice de Transparência e Integridade – lugar 291 de 308 – o que me parece sintomático de muito do que se passou em termos da sua gestão opaca; falhou redondamente ao provocar os guardenses na sua cruzada anti-árvores. Arranjou, com isso, muitos anti-corpos e custar-lhe-á mais votos do que os que ganhou com essa atitude; é dono de um irritante mau-perder e sobranceria para quem quer que se lhe oponha, diria mesmo, de um tique autocrático e narcisista, cujo pináculo foi o discurso “anti-oposição” perante criancinhas, arrastadas para um palco improvisado, na Avenida Cidade de Salamanca, após o polémico abate dos cedros. Cobardemente, fê-lo após o abate e limpeza do local do crime. Corajoso teria sido fazê-lo, perante o mesmo público, tendo por fundo o ruído das motosserras e as quedas secas, ocas e dolorosas das belas árvores.

Álvaro ficará para a história como o presidente das festas e das rotundas principescamente pagas, algumas das quais hediondas, como é o caso da “mãosoléu”, “baluarte” das boas vindas à cidade. Esta aparição tétrica, principalmente, em dias de nevoeiro, convida os viajantes a subirem pela sua rampa e a perderem-se para lá da porta que lhe corta os tendões. A “anja”, numa rotunda ali próxima, perante tão horrível visão, até lhe virou o belo traseiro!

Na rotunda oval junto ao Polis, sóbria, elegante e ecológica, decorada com belas magnólias, uma locomotiva dos anos 80, laranja, enorme e horrenda, prepara-se para competir com a “mãosoléu” pelo prémio do mau gosto aplicado a rotundas. Custa-me a entender esta opção pelo monstro laranja “versus” fotossíntese. Ou então, não estamos a ver bem o filme e o presidente quer deixar, literalmente, uma pesada marca da sua gestão sob a forma de uma subliminar mensagem cromática.

Restar-nos-ão duas opções nas próximas eleições autárquicas: confiar ou castigar o homem que diz ter, para com a Guarda, uma dívida de gratidão.

Por: José Carlos Lopes

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