Quando pensávamos que a tempestade já tinha passado, eis-nos perante mais uma tragicomédia financeira. Depois de anos de governança entregue ao “arco do poder” o «maior banco português» tem de ser capitalizado em quatro mil milhões de euros, dizem… Ou seja, mais um arrombo nas contas públicas e mais uma vez o contribuinte a suportar os erros de banqueiros, que neste caso são nomeados pelos governos, por “confiança”, compadrio ou camaradagem.
Durante anos, os governos nomearam gestores e administradores da CGD acomodando interesses e financiando, não a economia de forma diferenciada, que é para isso que existe um banco público, mas clientelas e investimentos de acordo com uma agenda de contactos – do negócio da La Seda em Sines ao Vale do Lobo.
Estranhamente, e perante o gigantesco buraco que se vai destapando na Caixa, os partidos optam pela divergência ideológica e não querem, em uníssono, conhecer os esqueletos de mais uma história de irresponsabilidade, incompetência e fartar vilanagem.
Depois de alguns ziguezagues, a solução apresentada pelo PSD é óbvia: uma comissão parlamentar de inquérito potestativa, ou seja, que a priori dispensa o apoio de outros grupos parlamentares. O CDS foi atrás, e bem. Do outro lado, o PCP põe-se de fora considerando que um inquérito à Caixa põe «em causa a natureza pública do banco», e assim comete um erro histórico de lavar as mãos sobre o que se passou na CGD. Mas o Bloco assume outro caminho: apresentou um projeto de resolução para exigir que o Ministério das Finanças peça a realização de uma auditoria forense aos créditos de alto risco concedidos pela Caixa nos últimos 20 anos. Entretanto, o PS joga à defesa e não percebeu que os portugueses querem saber o que se passou e exigem que a gestão da Caixa seja escrutinada. Não se percebe porquê. Aliás, como se escreveu no Editorial do “Público”, faz sentido realizar uma auditoria forense aos créditos de alto risco dados pela Caixa, como propôs o BE, e faz sentido que as suas conclusões sejam entregues ao parlamento, à comissão de inquérito proposta pelo PSD, para que a Assembleia da República possa tirar todas as ilações e atuar em conformidade. E esta deveria ser a posição de todos os partidos: conhecer as responsabilidades e retirar ilações políticas, legislativas e criminais, se as houver. A culpa não pode continuar a morrer solteira enquanto o país é saqueado; as diferenças ideológicas não podem continuar a ser o denominador que atrofia vontades e liberdades; os partidos têm de assumir que têm muitas teias de aranha nos armários e que têm de as limpar ou não merecem a confiança dos cidadãos.
E se os partidos ainda não perceberam o vendaval em que estão metidos é porque andam muito distraídos. No próximo domingo, em Espanha, o “Podemos”, que emanou de um movimento contra a corrupção e os interesses instalados, vai ficar em segundo lugar e ter mais votos que o PSOE; em Roma Virginia Raggi foi eleita presidente da Câmara por um movimento antissistema e anticorrupção… Em Portugal temos um ex-primeiro-ministro que esteve preso e está acusado de corrupção e muitos políticos, ex-governantes, de esquerda e de direita, condenados, acusados ou suspeitos de enriquecimento ilícito ou corrupção. Ou os partidos olham de frente o assunto e promovem a mudança por dentro ou ela acontecerá fora do sistema – porque se eles não «são todos iguais» então não pode haver fuga ao escrutínio e à prestação de contas.
Luis Baptista-Martins



