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Travessia do Deserto

Há muitas coisas numa região, boas ou más, que podem ser imputadas ao trabalho da câmara e outras de que esta é inocente ou não pode reclamar mérito. De facto, quando por exemplo os políticos prometem emprego pouco podem cumprir a esse respeito, a não ser que, se ganharem, irão abrir vagas na câmara ou nas empresas municipais – mas não é disso, evidentemente, que se trata. Na verdade, para as empresas que se queiram estabelecer aqui é muitas vezes irrelevante saber quem manda na autarquia e, quando é importante, raramente o é pelas boas razões. A margem disponível para atrair emprego para a região é muito estreita: o montante do IRS que fica na autarquia e dependa desta, a derrama, o IMI, e pouco mais. Há outros aspectos, que terão a ver com a vontade de alguém gostar de viver cá ou pelo menos de não partir. É o caso da vida cultural, dos acessos, da qualidade das soluções urbanísticas, da facilidade em circular de carro e em estacionar, da qualidade dos espaços verdes, da existência ou não de um hospital de qualidade, de boas escolas, de espaços de lazer.

Mas regressemos ao início. Muitos destes aspectos da vida numa cidade, muito daquilo de que depende a qualidade do quotidiano depende de muito mais do que de políticas camarárias. A abertura ou não do novo hospital da Guarda, a integração do IPG na UBI, o eventual encerramento de repartições de finanças, a reabertura ou não do Hotel de Turismo, por exemplo, pouco dependem da autarquia e esta, quando muito, poderá tentar influenciar quem realmente manda.

É preciso por isso de muito mais do que a simples análise de como está a cidade para se poder fazer um balanço final da gestão autárquica socialista no concelho da Guarda. É verdade que a região está mal, que se perderam muitos empregos, que cada vez mais gente, e gente que faz falta, foi embora ou se prepara para ir, que a cidade foi perdendo importância e oportunidades em benefício de outras. Mas é verdade também que muito disso é culpa de Passos Coelho, de Sócrates, de Cavaco Silva e de muitos outros governantes.

Mas há coisas que têm um claro culpado e que não podemos perdoar. A incrível demora, ao ponto de a tornar inútil, da entrada em funcionamento da plataforma logística (e nem falemos dos erros de concepção, como a falta de ligação à rede ferroviária); a construção caótica e de baixa qualidade que foi admitida nos bairros periféricos da cidade, associada a uma especulação imobiliária sem freio; o excesso de funcionários na câmara e nas empresas municipais; algumas inconsequências e obras inacabadas, como a VICEG ou o Hotel de Turismo; outras que demoraram tanto que acabaram com a paciência dos munícipes, como foi o caso dos recentes trabalhos na rede de canalização. Houve isto e muito mais, como por exemplo o excessivo endividamento ou algo tão pouco relevante, aparentemente, como a falta nos últimos anos de iluminações de natal. São às vezes estas coisas, que alguns julgarão sem importância, que ficam na memória por muitos anos ou, pelo menos, até às próximas eleições. Ou muito me engano ou o partido socialista na Guarda vai fazer uma longa travessia do deserto.

Por: António Ferreira

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