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Tom Jobim (António Carlos Jobim)

Opinião – Ovo de Colombo

Nós perdoamos-lhe os deslizes de voz ao cantar, aqui e ali, as pequenas desafinações e ainda aqueles versos que são insatisfatórios lugares-comuns, alguns com um certo ar infantil, ou que parecem não encaixar e ter sido adicionados apressadamente para preencher o poema.

Perdoamos-lhe tudo, e sem hesitações, porque a sua obra nos toca sobremaneira e nos faz viajar até à nossa sensibilidade mais escondida. O que Jobim faz, que é tão seu característico, e que nos é tão querido, é aliançar uma música rica, de uma enorme beleza e complexidade, com uma certa ingenuidade irresistível que está presente quer em fragmentos da sua poesia, quer em determinados elementos musicais por si utilizados. Estes lembram-nos os sons do Brasil – ouvimo-los e imediatamente os associamos a este país e à sua cultura – e estão presentes em abundância na sua obra, tanto na que tem características que consideramos “populares”, como na que se pode classificar como “erudita”. Este músico, em toda a sua complexidade e sofisticação, não deixa nunca de ser fiel à influência da cultura, da música e mesmo da mitologia do seu país, transmitindo-nos tudo isso com todo o encanto através de elementos rítmicos, melódicos e textuais.

O que Tom Jobim nos mostra é que a sua vivência do mundo e das emoções é simultaneamente simples e profunda, repleta de uma sensibilidade quase inocente face aos temas do amor, da amizade e da ligação ao seu país. No seu escrever e no seu cantar assistimos a essa encantadora puerilidade, e sentimo-nos próximos dela, cúmplices dessa forma de sentimento tão límpida que todos possuímos enquanto crianças. Estamos perante um homem que vive livremente a sua esfera emocional e a explora, invejavelmente, sem refreios, usando-a como base criativa para originar verdadeiras obras de arte.

Joana C. Pereira

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