1. Após duas semanas de emoções intensas na vida política nacional, ficámos a saber três coisas, duas simples e uma nem por isso: 1º A partir de agora, todos querem ser ministros da economia e ninguém da austeridade; 2º Como referia com acerto um jornalista espanhol, ficou confirmada a tendência de os acontecimentos políticos em Portugal ocorrerem invariavelmente entre as 20.00H e as 21.00H. Ou seja, vigora a ditadura do prime time; 3º Após um longo período de observação da estratificação ciber-sócio-cultural da população residente nacional, poder-se-á chegar com segurança às seguintes conclusões: a) 500 mil cidadãos (com maior ou menor pegada digital), que concederam a si próprios vários graus de imunidade, pensam que cerca de 20 mil chulos (classe política, banqueiros, quadros superiores, clientelas assessoriais) são os culpados desta “penúria” que nos é “imposta” (utilizando o vernáculo próprio); b) 5 milhões de cidadãos pensam que os 500 mil cidadãos que culpam os tais 20 mil chulos são os verdadeiros culpados, pois, querendo imitá-los, viveram acima das suas possibilidades e à custa das benesses do Estado Social (que ninguém sabe exactamente o que é, só se conhecendo o que a coisa custa); c) Os tais 20 mil chulos praticam entre si segregação activa, pelo que, na verdade, serão efectivamente 5.000 chulos de 1ª, 7.500 chulos de 2ª e 7.500 aprendizes, valendo aqui também a tradição maçónica; d) Os tais 5.000 chulos de 1ª correspondem, grosso modo, aos índices de empregabilidade dos partidos do Bloco Central. Ou seja, quer o PS quer o PSD têm, cada um à sua conta, cerca de 2.500 “clientes” para empregar em cada legislatura; e) A quota dos 7.500 chulos de 2º é preenchida com os “boys” and “girls” do poder local e regional e algumas sinecuras menores das empresas e institutos públicos; f) Os 7.500 aprendizes vivem ainda nos berçários das juventudes partidárias, associações académicas, no associativismo “juvenil”, havendo ainda, naturalmente, os primos e enteados de notáveis beta e alguns alfa; g) Ora, os 20 mil chulos oficiais pensam que a verdadeira chulice está no pessoal do Rendimento Social de Inserção, nos impostos quer ainda têm que pagar (e que escaparam às 1.001 isenções e expedientes de que são capazes) e nos artistas subsidiados para fazerem umas “coisas esquisitas” que “ninguém vê” (sic). h) Sucede que os 5.000 iniciados de 1ª não se importam de assinar sazonalmente (pagar é outra questão, digamos assim) o cheque para a populaça, ou dar a entender que o não vão deixar de assinar, desde que isso garanta votos e angarie simpatias. Independentemente da situação financeira do país. A história da III república tem passado, em grande parte, por esta “ninharia”; i) Por sua vez, 4 milhões de cidadãos entendem que os chulos são, genericamente, “os outros”. Por vezes, apontam mesmo o dedo ao patrão, ao vizinho, ao primo, ao polícia autuante, ao treinador X ou ao jogador Y. j) Relativamente aos artistas subsidiados, comungam da opinião dos chulos gourmet os tais 4 milhões, metade dos 5 milhões e a minha prima Gervásia, que faz parte dos 500 mil; k) Quanto aos 500 mil restantes, observa-se que não contam para as estatísticas. Motivo: desejam sempre que as estatísticas vão para p… que as p….!; l) Diga-se, em abono da verdade, que os 7.500 aprendizes de chulo e metade dos iniciados de 2ª têm um ponto de vista peculiar e com efeito garantido nas salas, restaurantes, bares e corredores onde se movem: eles não são chulos “proprio sensu”, mas “caricas”. O que, na gíria da prostituição, significa que não são os odiosos exploradores da “carne branca”, mas os “queridos” que vão a essa carne regularmente e sem pagar!… Agora comparem com a situação do país. E não é que essa rapaziada até está certa?!
2. Durante os meses de Julho e Agosto, muitos participam nas habituais transumâncias estivais de e para as ocidentais praias lusitanas. São manadas e manadas entupidoras do comércio, da areia, da paciência, das estradas, dos mercados, das ruas, dos cafés, dos serviços, do sossego. Há quem chame isto de férias… Alguns já declararam mesmo, para os devidos efeitos, o fim do Verão. Talvez porque se sintam ainda aquém da Taprobana. Ou porque quiseram transformar o fim do “seu” Verão numa categoria universal. Tudo hipóteses (de trabalho), é claro. Seja como for, está aí à porta o magnífico e inspirador mês de Setembro. Propício a delíquos poéticos, caminhadas redentoras com a vieira a orientar, longas exposições aos tons dourado-acastanhados pré outonais e leituras a propósito. O mês onde, como bem notou Eugénio de Andrade, “tudo estava calmo/céu, lábios, areias…”. A demora convém ser longa. Sem esquecer uma passagem furtiva pela vinha, ou pelo pomar. Espreitar a sua úbere e perfumada generosidade. Trincar a maçã. Dar graças por esta trégua momentânea entre Deus e os homens.
Por: António Godinho Gil



