1. Donald Trump acaba de tomar posse. Foi eleito aproveitando as particularidades do sistema eleitoral norte-americano e mesmo tendo milhões de votos a menos que a sua opositora. Também fez batota, acusando a sua opositora de falsidades várias. Conseguiu na campanha uma clara vitória estratégica, desvalorizando as suas muitas fraquezas e os seus muitos podres e exacerbando o caso dos emails de Hillary Clinton. É verdade que muitos dos seus apoiantes não percebiam muito bem que problema grave seria este, mas a máquina de propaganda soube fazer o seu trabalho e de repente passou a ser muito pior enviar correio eletrónico de um servidor não seguro do que assediar mulheres, ofender minorias, mentir compulsivamente, esconder declarações de rendimentos, apoiar-se em potências estrangeiras rivais ou mostrar, de um modo geral, não estar minimamente preparado para o lugar a que se candidatava. Trump é um produto da televisão dos “reality shows” e a televisão, sobretudo de má qualidade, é o principal meio de acesso à informação ou à cultura de milhões e milhões de americanos (e ingleses, e portugueses, e…). Mais tarde ou mais cedo teríamos de ter uma eleição como a descrita em “Farenheit 451” por Ray Bradbury, em que a imbecilização geral transforma a democracia numa mera formalidade burocrática e a escolha dos eleitores se distancia cada vez mais dos seus próprios interesses. Foi assim o Brexit, será assim com os milhões de brancos pobres e ignorantes que votaram em Trump iludidos por fantasmas e mentiras. Admirável é o facto de uma boa secção da esquerda educada e afluente ter seguido o mesmo caminho: muitos votaram em Trump por entenderem ser ele uma melhor escolha que Clinton e que esta continuaria a lógica da guerra e levaria o Mundo, mais tarde ou mais cedo, a uma catástrofe nuclear. Ninguém lhes diga que as últimas guerras foram desencadeadas por presidentes republicanos, que, como se sabe, nunca devemos permitir que os factos se interponham entre nós e uma boa teoria, mas talvez as futuras relações entre os EUA e a China lhes sugiram outras aliciantes teorias, provavelmente muito discutíveis também. Estamos já a viver na era distópica da pós-verdade e dos factos alternativos, não é?
2. O leitor vive numa cidade em que faltam empregos? Queixa-se de que paga a água cara, que o IMI é demasiado alto para o que recebe de volta? O leitor acha que um dia vai tudo fechar por falta de gente? O leitor desespera pela falta de estacionamentos no centro da cidade? Não se aflija mais, que a sua câmara municipal vai tratar de resolver os problemas todos. Contudo, antes disso, haverá que concluir o estratégico e fundamental plano de rotundas. Segue-se agora outra, no valor de meio milhão de euros, perto da estação da CP. Vai de certeza ficar muito bonita, com a sua locomotiva vintage, assim como vão ficar muito bonitas todas as zonas “requalificadas” da cidade. Quando for “requalificado” o Hotel de Turismo da Guarda, de preferência reabrindo-o e assim cumprindo uma promessa eleitoral, talvez se comecem a dar passos concretos para resolver problemas verdadeiros, como aqueles que preocupam o leitor. Por enquanto, com rotundas, eventos e festas, não temos ido lá, mas a esperança não morre e ainda faltam uns meses para se completar este mandato autárquico.
Por: António Ferreira
* Regressa quinzenalmente
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