A seca que está a afetar o país volta a colocar na ordem do dia a importância da construção de barragens para armazenamento de água e produção hidroelétrica. No distrito da Guarda houve vários projetos que não passaram de estudos e ficaram na gaveta. Mas o único que viu a luz do dia também acabou por não se concretizar. O INTERIOR recorda-lhe os empreendimentos que um dia foram considerados imprescindíveis «a curto prazo» para incrementar o turismo, viabilizar a hortofruticultura de alto valor acrescentado, regularizar caudais – quer de cheias ou de esteais – ou ajudar no combate a incêndios.
O alerta foi deixado em 2003 por Aníbal Traça, professor da Universidade de Coimbra e coordenador de um estudo sobre os impactes de grandes e médias barragens na região Centro. O investigador referia-se aos aproveitamentos hidroelétricos da Senhora de Assedasse (Gouveia), Girabolhos (Seia), no rio Mondego, Pêro Martins e Senhora de Monforte, no Côa, e defendeu a sua tese num seminário organizado na Guarda pela ENERAREA (Agência Regional de Energia e Ambiente do Interior), onde deixou claro que os argumentos a favor destes empreendimentos são «altamente» positivos em termos económicos e energéticos, enquanto os impactos ambientais são mínimos. O ponto de partida era um estudo sobre 14 barragens na região Centro, encomendado pela então Comissão de Coordenação da Região Centro (CCRC) ao Instituto Pedro Nunes – Associação para a Inovação e Desenvolvimento em Ciência e Tecnologia, de Coimbra, e envolveu investigadores da universidade e especialistas de outras instituições.
Na altura, Aníbal Traça reforçou a importância estratégica destes projetos ao dizer que «ter água em quantidade e qualidade é absolutamente essencial», exemplificando com o caso de Espanha onde a água transformou zonas quase desérticas na «“horta” da Europa». Naquele seminário o professor acrescentou ainda que «os espanhóis aproveitam aquilo que Deus lhes dá, enquanto nós deixamos a água correr para o mar e ficamos sujeitos às vicissitudes climáticas». Palavras que se revelaram proféticas catorze anos depois.
Cinco barragens prioritárias no distrito da Guarda
O projeto da barragem da Sra. de Assedasse (Gouveia) era o empreendimento hidroelétrico mais vantajoso de um conjunto de 14 aproveitamentos de média e grande dimensão que a então estatal EDP admitia vir a construir na região Centro.
A conclusão resultava do estudo realizado sobre os impactos negativos e positivos destas obras e deu origem a uma lista por ordem de prioridades. O trabalho revelava que cinco das barragens consideradas prioritárias estavam localizadas no distrito da Guarda. Eram elas Assedasse (Gouveia) e Girabolhos (Seia), no Mondego, que lideravam a tabela, enquanto Pêro Martins (Figueira de Castelo Rodrigo), no Côa, era considerada a quarta prioridade e Atalaia (Pinhel) e Sra. de Monforte (Figueira de Castelo Rodrigo) ocupavam, respetivamente, o oitavo e décimo lugar.
O trabalho, realizado no âmbito do Programa Energético da Região Centro, teve como base a análise dos potenciais impactos (energéticos, económicos, agrícolas e ambientais) de cada projeto de barragem ou albufeira, bem como a sua importância enquanto reserva de água de qualidade e recurso no combate aos fogos florestais. A ordenação final teve ainda em conta diferentes majorações consoante os impactos considerados, com destaque para a valia elétrica.
A barragem da Sra. de Assedasse integrava o aproveitamento hidroelétrico do Alto Mondego, também constituído pelos projetos de Girabolhos, entre Seia e Gouveia, e Midões. Mas dessas, apenas a de Girabolhos avançou para ser cancelada em 2016. Os restantes cinco empreendimentos nunca saíram do papel, sendo o de Pêro Martins o mais antigo de todos. A ideia de constituir uma grande reserva de água na bacia do Côa germinou na década de 70 do século passado e foi definitivamente projetada em 1986, mas acabou na gaveta dez anos depois com o fim da barragem de Foz Côa. Na altura, os estudos da EDP previam a construção de um conjunto de cinco aproveitamentos: Pêro Martins, Senhora de Monforte – ambos no concelho de Figueira –, e três de captação de água, funcionando em cascata a partir da Atalaia, no concelho de Pinhel.
A opção Pêro Martins voltou à atualidade após os problemas ambientais do Sabor, mas esta última localização foi escolhida para a construção de uma nova barragem no sistema do Douro. Em 2007, o empreendimento de Girabolhos acabou por ser o único a figurar no Plano Nacional de Barragens elaborado pelo Governo de José Sócrates. Mas nove anos depois o Governo de António Costa e a Endesa, que tinha ganho a concessão da barragem, acordaram o cancelamento da sua construção e o ponto final num investimento da ordem dos 400 milhões de euros, o maior alguma vez realizado nos concelhos de Seia e Gouveia. O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, explicou na altura que na origem do cancelamento de Girabolhos estava o facto «das necessidades energéticas não justificarem a sua construção».
Luis Martins



