Parei para meter gasóleo na área de serviços “El Salto”, quilómetros após Cidade Rodrigo, vindo de museus e fundações madrilenas.
Paro aí, praticamente desde a sua fundação. Como, durmo (na auto-vivenda), lavo as viaturas, faço compras, atesto e encontro sempre pessoal acolhedor, discreto e educado. Também me tratam como a um amigo.
No final de um dos últimos dias de Dezembro, após atestar, decidi comer algo ao balcão, dado que o restaurante estava fechado. Aproximava-se a meia-noite e, antes de me sentar, em castelhano, dei as Boas Noites ao único cliente ao balcão – que não respondeu. O empregado, vindo da cozinha, chegaria momentos depois.
Andava afadigado, a levar grades de cerveja vazias, substituir vasilhame, em tarefas de cozinha…
Chega um camionista português e começa a falar com o que não tinha respondido à minha salvação; e um terceiro, que fumava impaciente, e impaciente e acre pediu ao empregado de balcão que lhe trocasse uma nota de 20 € por moedas, a fim de jogar na máquina. Não entendeu que o funcionário, atarefado, não tinha dado por ele. Respondeu-lhe, todavia, com humildade. Algo intimidado?
Chegou uma segunda vez, a fim de igual nota ser trocada por moedas. Dado que, pelos vistos, ainda não entendera que o trabalho do empregado o forçava a estar mais na cozinha que ao balcão, fui eu que, situado frente à porta para o interior, por sinal, apontei para o servente, indicando-lhe, por dedo, que era solicitado. Veio imediatamente.
Uma Scania, de uma empresa transportadora de correio internacional urgente, encostou à bomba. Tinha matrícula espanhola. O grupo de dois, à minha direita, começou a depreciar o recém-chegado antes de ele se lhes juntar. Quantidade destes profissionais lusos vão agora para empresas espanholas, ou sedeadas em Espanha, dados os maiores salários.
O recém-chegado, de estatura meã, pícnico, rubicundo, aparentemente ingénuo, deteve-se um pouco à conversa com estes, após o que foi e veio da casa de banho açodado.
Curvo-me perante estes heróis da noite, do trabalho e do alcatrão, sem os quais nenhuma vida hodierna seria possível. Sei do que falo, por ser de um meio transportador que venho. Mas como suportar esta maledicência, mesquinhez? Autores diversos arrolam-na como uma característica da identidade nacional.
À minha saída, o que trocara 40 € por moedas, agitado, levantava e inclinava a máquina. Continuava a fumar e o semblante denotava profunda frustração interior.
Por mim, despedi-me, contente e afectuoso, com uma gratificação, e o empregado correspondeu com naturalidade e simpatia – como sempre aqui e em toda a Espanha.
Algures a norte da “província” de Castela e Leão, ou quilómetros a N. de Madrid (direcção Burgos), tenho encontrado compatriotas na construção civil.
Que república (res publica) é esta cujos filhos lhe voltam as costas? Que governantes são estes que fazem todas as promessas, mas sabem (que percentagem?) que só na política é que encontram ganha-pão? Que sabem – ou deviam saber – que, sem ela, não teriam marcas automóveis de prestígio – ou que passam por sê-lo… – a que pudessem chamar suas. (O Saab que os egitanienses pagaram, também aqui está na perfeição, com os seus 19 litros – de gasolina – em cidade).
Que sabem que, fora de tal actividade, seriam puros e perfeitos anónimos. Que sabem que a sua palavra nada vale, visto dizerem uma coisa no Governo e os antípodas na Oposição – ou vice-versa.
O Interior que continue a denunciar este – e outros – quejandos sucessos.
P.S.: No meu último artigo mencionei “Durão Barroso e tutti quanti”.
Escrever para a Imprensa é um acto sagrado. O escrúpulo relativamente ao que se emite para o leitor é intangível; por outro lado, igualmente intangível é o prestígio do jornal, o qual postula que o alcandoremos tão alto quanto possível.
Assim, escrever decorre de uma formação própria, de uma interpretação, mais ou menos idiossincrásica, tal qual do trabalho efectuado sobre a informação que nos chega – sempre a objectividade como escopo.
No caso vertente, baste citar José Vidal-Beneyto (colaborador sabatista de El País), ou, em linha editorial a anos-luz, digamos, da madrilena, a, suponho, mais vendida revista do mundo, a TIME.
Guarda, 12-I-06
Por: J. A. Alves Ambrósio



