É frequente ouvir dizer que a Praça Velha e a Rua do Comércio não têm vida, estão mortas porque os automóveis não passam, não páram e o comércio não faz vendas, enfim é uma desgraça. Os mais novos de hoje talvez desconheçam que no princípio da Rua do Comércio (Sé), Rua Marquês de Pombal com Alves Roçadas, havia três simpáticos sinaleiros, mesmo debaixo de chuva, vento e neve, que regulavam o trânsito automóvel e pedonal. Até tinham apito! Isto prova que esta veia coronária da cidade tinha um fluxo sanguíneo considerável.
Vejamos agora os principais pontos onde esse fluxo se foi perdendo e que ninguém fala:
A A23 e a A25 tiraram o trânsito que subia ou descia a Rua 31 de Janeiro, assim como à EN 16, hoje Avenida Monsenhor Mendes do Carmo.
Na Praça Velha havia motivos fortes para as pessoas lá irem, ora vejamos:
1) Felizmente ainda lá está o estabelecimento Oliva, das máquinas de costura da mesma marca, que em tempos tinha bastante procura pelas senhoras.
2) Havia a Farmácia da Sé (hoje na Rua Batalha Reis) dirigida pelo Sr. Dr. Manuel Estêvão, onde se faziam já algumas análises clínicas.
3) Existia o estabelecimento de Alfredo Silva, que trabalhava com ferragens diversas, tendo à distância armazéns de construção civil e serração de madeiras.
4) Funcionava o Centro de Saúde, por cima da Sapataria Topim, cujo dono é dos comerciantes que tem resistido a este êxodo comercial.
5) A Câmara Municipal.
6) O Banco Espírito Santo, dirigido pela simpatia do Sr. Capelo.
7) o armazém de mercearias do Sr. Morgado.
8) A Casa do Bom Café, outro herói que ainda se mantém, porque os seus produtos são procurados.
Na Rua do Comércio havia dois fortes estabelecimentos de fazendas, no tempo em que elas eram vendidas ao metro, ainda não se falava no pronto-a-vestir e tinham atendimentos de movimentos de letras e cheques, como se fossem bancos. Para finalizar, havia um estabelecimento de restauração que se chamava Leitaria Cristal, que até hoje ainda ninguém conseguiu imitar, pois tinha serviço de cafetaria, pastelaria, salão de bilhares e restaurante, onde primava o que era regional.
9)Consumadas estas saídas, vão proliferando na cidade e arredores os
supermercados. Os comerciantes actuais ou outros que venham a aparecer nesta zona só têm que se actualizar ou mudar de ramo, de maneira que “obrigue” os clientes a ir visitá-los, porque eles vão mesmo e de qualquer maneira, até o Vivaci os pode ajudar.
Basta estacionar no Vivaci, subir o elevador e estamos no centro da cidade, pois já há rapaziada que come uma pizza no Vivaci, bebe um copo na taberna do Benfica e volta para o cinema.
O presidente da Câmara Joaquim Valente ganhava uma enorme coroa de glória se resolvesse o problema do Cine-Teatro, que poderia ser transformado num silo automóvel, pois dá a ideia que estão a gozar mesmo com os guardenses.
(…). O que seria se o Papa, ao falar da janela para o povo na Praça de São Pedro, tivesse lá automóveis, o que seria de Fátima, da Praça do Município de Lisboa, do Terreiro do Paço, da Praça da Figueira, do Rossio. Mas a nossa Praça Velha, com a sua Sé, mesmo “morta” é superior a isto tudo, assim os homens dêem vida à sua periferia. Mas se as pessoas forem mais felizes por passar trânsito automóvel na Rua do Comércio é simples de resolver o problema, basta pôr dois ou três degraus a separar o largo da estrada. Mas para isso tem que estar resolvido o problema do Cine-Teatro.
(…)
António do Nascimento, Guarda



