Arquivo

Pois, Pois

Um herói morto. Adalberto Gastão Sousa Dias. Este nome diz com certeza muito pouco há maioria das pessoas da Guarda. E, no entanto, estamos a falar de um verdadeiro herói. Morreu em 1934, desterrado para Cabo Verde, após ter liderado, em 1931, um golpe falhado na Madeira que visava derrubar a ditadura. Foi sepultado em 1936 na nossa cidade (Guarda) em segredo. Era um republicano que acreditava na liberdade e que, por isso, pagou um preço altíssimo.

A ESEG em colaboração com a Associação 25 de Abril prestou-lhe a primeira homenagem pública. Foi nos dias 12 e 13 de Julho. Não posso deixar de destacar o papel do jornalista José Domingos. Conheceu este General sem medo através das histórias que lhe contava o também «injustiçado» dr. João Gomes. E, numa das suas intervenções emocionadas, o José confessou que um dia «jurou» ao dr. Gomes que haveria de fazer uma homenagem ao General. Cumpriu. E ainda bem.

Até ao fim, Sousa Dias nunca se vergou ao regime que abominava. Um dos seus bisnetos, José Sousa Dias, leu uma carta do seu bisavô em que este rejeitava uma oferta do poder que lhe permitia voltar à pátria que tanto amava, porque só o faria se todos os seus soldados o pudessem acompanhar no regresso.

Esta auto-exigência é raríssima e por isso mesmo merece ser louvada.

Dizia o filósofo Stuart Mill que em cada 100 pessoas 99 se movem por interesses pessoais e só uma se move por convicções. Mas é desse um por cento que nascem os grandes líderes e heróis. Isto era no século XIX. Hoje, essa percentagem é capaz de ser bem menor.

Precisamos de heróis: vivos ou mortos.

General, onde quer que esteja, obrigado pelo seu exemplo.

Um herói vivo. Mário Soares foi um dos convidados ilustres que prestou homenagem ao General Sousa Dias. Devo dizer que não me revejo na maior parte das posições políticas e ideológicas deste «mito vivo». Parecem-me absurdas as suas simpatias pelos movimentos anti-globalização ou o seu recente anti-americanismo ou a sua obsessão pelo «modelo social» europeu. Tudo, na minha opinião, posições que a serem seguidas pela Europa a levariam inevitavelmente à decadência e ao desastre. Mas isso agora não me interessa. Porque nada disso me impede de sentir uma profunda admiração e gratidão por este grande homem. Foi ele que, no famoso PREC, fez frente à esquerda revolucionária que pretendia substituir uma ditadura por outra tão ou mais hedionda. A direita, essa, pôs o rabinho entre as pernas e fugiu. Não deu a cara, não lutou. Anos a viver à sombra da protecção e das benesses do Estado Novo deixaram-na sem sangue nas veias.

Se hoje vivemos numa democracia liberal, devemo-lo em grande parte à coragem e à inteligência política de Mário Soares.

Não resisto a citar o historiador Rui Ramos (Outra Opinião, 2004): «Um dia far-se-á justiça a Mário Soares. Compreender-se-á então que ele foi o mais formidável e o mais bem sucedido líder que a esquerda portuguesa teve em duzentos anos de história. Muito provavelmente, a direita a que temos direito há-de ser a última a compreender isso.» Nem mais.

Pelos caminhos de Trancoso. O Prof. Lima Garcia organizou, pelo quinto ano consecutivo, um passeio pelo distrito da Guarda com cerca de 40 docentes da ESEG. Desta vez o destino foi as terras do famoso poeta-profeta-sapateiro Bandarra.

Trancoso é sem dúvida um bom exemplo a seguir em termos de cuidados com o património. O presidente de Câmara, Júlio Sarmento, tem a esse nível realizado um trabalho notável. Como notável é o trabalho do Turismo da vila. Hospitalidade, funcionários que, de facto, conhecem a História da terra – um pormenor raríssimo na maior parte dos postos de turismo deste país. A prova de que um bom presidente de Câmara faz toda a diferença.

Por: José Carlos Alexandre

Sobre o autor

Deixe comentário