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Poder de Compra Versus Qualidade de Vida dos Habitantes da Cova da Beira e da Beira Interior Norte

De uma forma simples pode definir-se o poder de compra de uma pessoa (ou per capita) por aquilo que essa pessoa consegue comprar com o que ganha, ou seja, com o dispêndio do seu ordenado. O poder de compra de uma região, distrito, concelho ou freguesia mede-se da mesma forma por aquilo que os habitantes destes espaços geográficos conseguem fazer ou comprar com a parte do bolo salarial ou pensionista que lhes cabe. Qualidade de vida, um conceito qualitativo e por isso difícil de mensurar pode medir-se exactamente da mesma forma pois que qualidade de vida em sentido lato, como gostamos de a estudar, tem que ver com as condições de vida que as pessoas de uma região têm e por isso aí se incluem os salários e pensões que as pessoas da região recebem – que estão associados à disponibilidade de empregos para as pessoas – as suas infraestruturas de saúde, ensino, de circulação, informação, as questões ambientais (água e resíduos), as despesas em cultura, a criminalidade, a disponibilidade de internet e outras redes (fibra óptica para as TVs e telefones, entre elas), e de tantos outros indicadores (no último estudo por nós coordenado usaram-se 48).

Vem isto a propósito da recente publicação recente do indicador de poder de compra dos (ainda) 308 concelhos portugueses por parte do INE e também da ainda também recente publicação (há um ano mais precisamente) do índice sintético de qualidade de vida dos municípios do país publicado pelo ODES-UBI, o Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social.

Se virmos o mapa que acompanha o texto relativo ao índice de poder de compra deste instituto oficial português (www.ine.pt, 8/nov/2013 ) vê-se que as suas cores são mais escuras (indicando regiões mais ricas) no litoral e mais claras (identificando as regiões mais pobres) no interior com variações dessa tonalidade nos concelhos mais urbanos (mais ricos) e nos concelhos mais rurais (mais pobres). De facto mais de metade do poder de compra dos 308 municípios portugueses está concentrado nos 35 concelhos das áreas metropolitanas ou grandes regiões de Lisboa e do Porto. Segundo esses resultados publicados pelo INE em 2011, estas duas regiões, conjuntamente concentravam só por si, 52% do poder de compra nacional, embora aí estivessem a viver e trabalhar “apenas” 44% da população restando apenas 48% para os restantes municípios onde residem 56% da população. Outros dados significativos, também visíveis nesses números frios e secos, mostram que: menos de 12% dos municípios tem um poder de compra per capita acima da média do País (100%); que o concelho mais rico do país é Lisboa, com um poder de compra 2,167 vezes o IpcPCC médio nacional (ou 116,7% acima da média do país); que entre os dez municípios com poder de compra mais baixo, há sete que se situam no interior da região Norte; e que Celorico de Basto nessa mesma região é o município mais pobre, com um poder de compra de 49,8% do valor padrão, a média nacional, (facto que levou a sua CM a anunciar que ia accionar judicialmente o INE por discordar dos valores publicados).

Em termos mais técnicos o Indicador per capita do Poder de Compra concelhio (IpcPC) representa a capacidade de compra de um município no seu todo – isto é, aquilo que as pessoas e empresas e outras entidades recebem como salários, pensões e outras receitas – dividido pelo respectivo número de habitantes que nele residem. Assim, o valor do IpcPC de cada concelho representa o seu posicionamento face à média de Portugal que é fixado em 100%. Ou seja, um valor de 150% significa um poder de compra 50% acima da média nacional e um valor de 49.8% significa um poder de compra 50.2% abaixo da média nacional.

Retrato das regiões da Beira Interior (BI) – Posicionamento da Beira Interior Norte e da Cova da Beira

Em termos de poder de compra per capita os concelhos melhor posicionados da Beira Interior são os concelhos onde se localizam as cidades capitais de distrito e noutros centros urbanos de maior dimensão pela abundância, sobretudo, de serviços públicos (Universidades, Politécnicos, CM, SM, SS, ARS, Finanças, …) e também de algumas empresas industriais e comerciais e diversos serviços (sector terciário). É o caso do concelho da Guarda localizado em 1º com 96.9% da média nacional, ou seja, mesmo assim, 3.1% abaixo da média nacional, de Castelo Branco em 2º com 95.5% (4.5% abaixo da média), a Covilhã em 3º com 84.6%, logo 15.4% abaixo da média, o Fundão em 4º com 75.1% (24.9% abaixo) e Seia em 6º com 73.6% (26.4% abaixo). No fim, com menor poder de compra per capita temos os municípios de Vila de Rei (20º), Meda (21º), F. Algodres (22º), Oleiros (23º) e Penamacor (24º), neste último caso com pouco mais de 50% do poder de compra médio (54%). A lista completa do melhor para o pior nesta região do País é a seguinte: 1º-Guarda, 2º-C. Branco, 3º-Covilhã, 4º-Fundão, 5º-Almeida, 6º-Seia, 7º-Belmonte, 8º-Sertã, 9º-V. V. Ródão, 10º-Gouveia, 11º-Proença, 12º-C. Beira, 13º-Trancoso, 14º-V. N. Foz Côa, 15º-F. C. Rodrigo, 16º-Manteigas, 17º-I. Nova, 18º-Sabugal, 19º-Pinhel, 20º-V. Rei, 21º-Meda, 22º-F. Algodres, 23º-Oleiros e 24º-Penamacor. Convém referir em abono da verdade que nenhum dos municípios da região atinge a média nacional, ou seja, 100%; mesmo a Guarda, C. Branco e Covilhã, os melhores classificados da região ficam 3.1%, 4.5% e 15.4%, respectivamente, abaixo da média nacional, como já tínhamos referido anteriormente. Mas se tivermos em atenção os 3 concelhos pior classificados esses praticamente só podem consumir entre 50% e 60% do que consome a média dos outros portugueses e apenas ligeiramente acima de Celorico de Basto com os tais 49.8% (menos de metade do poder de compra médio nacional).

Ordenação/ranking dos concelhos da região no cômputo nacional

Mas aquilo que chama verdadeiramente a atenção dos leitores da imprensa costuma ser a publicação do Ranking ou ordenação em termos de IpcPC–Indicador per capita do Poder de Compra Concelhio. Nesta ordenação, e sem surpresa, o 1º lugar é ocupado por Lisboa, e o último (308º) por Celorico de Basto na região Norte. Nesse ranking os melhores classificados da região da BI são: a Guarda-43º, C. Branco-51º, Covilhã-90º, Fundão-136º, Almeida-138º, Seia-146º, Belmonte-163º, Sertã-165º, V. V. Ródão-185º, Gouveia-196º, Proença-214º, Celorico da Beira-215º, Trancoso-218º, Foz Côa-226º, F. C. Rodrigo-238º, Manteigas-º, I. Nova-243º, Sabugal-256º, Pinhel-260º, V. Rei-269º, Meda-271º, F. Algodres-º, Oleiros-290º e Penamacor-294º.

Percentagem de Poder de Compra dos Concelhos da região

Um outro indicador interessante publicado pelo mesmo trabalho do INE é a Percentagem de Poder de Compra (PPC) de cada um dos (ainda) 308 concelhos do país, um indicador derivado do Indicador per Capita (IpcPC) que avalia o nível de concentração do poder de compra ou riqueza (poder de compra acumulado de todos os habitantes, empresas e outras entidades) nos diferentes concelhos nacionais. Este indicador mede, por isso, o peso ou percentagem do poder de compra de cada município no total do País. Em termos desta PPC no todo nacional, a percentagem do bolo que cabe a cada um dos municípios da região e o seu lugar na ordenação são os seguintes: Castelo Branco em 1º com 0.50%, Covilhã em 2º com 0.41%, Guarda em 3º com 0.387% e o Fundão em 4º com 0.206%. No fim da lista vêm também por ordem decrescente: Penamacor (0,029%), Meda (0,028%), F. Algodres (0,027%), VV Ródão (0,023), Manteigas (0,02%) e V. Rei (0,019%). A ordenação total da melhor posicionada é a seguinte: 1º-C. Branco, 2º-Covilhã, 3º-Guarda, 4º-Fundão, 5º-Seia, 6º-Sertã, 7º-Gouveia, 8º-Sabugal, 9º-Trancoso, 10º-Idanha-a-Nova, 11º-Pinhel, 12º-Almeida, 13º-Proença, 14º-Belmonte, 15º-Celorico da Beira, 16º-V. N. Foz Côa, 17º-C. Rodrigo, 18º-Oleiros, 19º-Penamacor, 20º-Meda, 21º-F. Algodres, 22º-V. V. Ródão, 23º-Manteigas e 24º-Vila de Rei. Refira-se ainda que estes 24 municípios tomados conjuntamente têm um peso de 2.6% do todo nacional, valor que é um bom indicador da insignificância da nossa região pois esse valor quer dizer que de 100 euros gastos ou consumidos por Portugal no seu todo, estes 24 municípios da Beira Interior apenas recebem ou consomem 2.6 euros, tudo o resto (97.4 euros) se esfuma pelo resto do país. Estes valores traduzem igualmente um elevado nível ou indicador de concentração (se medido pelo índice de Gini) pois a Grande Lisboa e o Grande Porto concentram, só por si, 52% do poder de compra nacional, deixando apenas 48% para todos os outros municípios, e estes valores têm-se vindo a agravar progressivamente, pelo menos desde os anos 1950/1960 do século passado, altura em que começou a grande emigração desta bonita mas cada vez mais pobre região, tendência que não dá mostras de querer estabilizar ou inverter. E imagine-se o que ela seria se no período pós-25 de Abril não tivessem sido canalizados para este interior recursos financeiros importantes para as instalações físicas da Universidade da Beira Interior e dos Institutos Politécnicos de Guarda e Castelo Branco e para a contratação de muitas centenas de professores e funcionários, factos que vieram a atrair anualmente milhares de alunos em cada uma das 3 instituições e que, quer uns quer outros, aqui gastam ou investem as suas economias.

Índice per capita de Poder de Compra (INE) versus Índice Sintético de Qualidade de Vida (ODES-UBI)

Terminamos com uma comparação entre os valores do Índice per capita de Poder de Compra publicado pelo INE e o Índice sintético e Concelhio de Qualidade de Vida (ICQV) em sentido lato publicados sucessivamente pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior (3 edições: 2006, 2009 e 2012) para concluir que ambos usam a mesma metodologia de análise (Análise Multivariada e dentro desta a Análise Factorial) e que, apesar de o INE utilizar um menor número de variáveis (menos de 30) do que o Observatório da Universidade (no último estudo do ODES-UBI este usou 48) há um paralelismo enorme entre os rankings ou ordenações fornecidos pelos dois estudos em termos de posicionamento relativo de cada um dos concelhos nos respectivos rankings nacionais pois ambos concluem que o país, seus concelhos e seus habitantes vão a duas velocidades em termos de evolução da riqueza per capita logo da sua qualidade de vida, uma para o litoral e grandes municípios nele localizados e outra para o interior e seus concelhos, com uma ou outra excepção, particularmente dos municípios capitais de distrito e outros mais urbanos que se apresentam em posições intermédias entre aquelas pelos motivos já anteriormente apresentados (localização de serviços públicos e empresas, sobretudo). De referir que os dados que serviram de base a estes dois estudos são oficiais e foram publicados pelo INE e são referentes aos anos de 2011 para o IpcPC e 2010 para o ICQV (estes dados saem sempre com pelo menos 2 anos de atraso em relação aqueles a que dizem respeito).

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Por: José R. Pires Manso*

* Prof. Catedrático da UBI e responsável do Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da UBI (ODES-UBI)

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