Aos 21 anos, Sofia Gomes tem, já, uma longa história de vida para contar. Conta 15 operações e espera, há vários anos, por outras intervenções cirúrgicas de que necessita. Aos 18 meses de idade, na sequência de um acidente doméstico com um candeeiro de petróleo, Sofia sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau em 60 por cento do corpo.
Agora, os colegas do 2º ano do curso de Animação Sóciocultural da Escola Superior de Educação (ESE) do Instituto Politécnico da Guarda (IPG) juntaram-se para promover uma campanha de solidariedade. O objectivo é angariar fundos para que a Sofia possa efectuar as operações necessárias – reconstituição mamária, da face, do couro cabeludo e das orelhas – numa clínica particular. Isto porque, nos últimos anos, a jovem tem sido acompanhada nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). Contudo, e apesar de ainda precisar de novas intervenções, está há vários anos à espera que o seu caso seja solucionado. «Ainda não se sabe sequer se as operações necessárias poderão, ou não, ser realizadas», explica José Barros, um dos colegas responsáveis pelo movimento de solidariedade “Vamos ajudar a Sofia”. Recentemente, a estudante fez uma nova operação, ao couro cabeludo.
«Depois de terminar os tratamentos, voltarei a entrar em lista de espera para nova intervenção, mas nem sei a que será, cabe ao Hospital definir», conta Sofia Gomes. Todas as operações têm sido realizadas com apoio do Estado. «É impossível que os meus pais consigam pagar, mesmo que optasse por outra via», continua. Mas, apesar das dificuldades, amigos não lhe faltam. «Pedimos ao HUC o processo clínico para, depois de analisado, pedirmos orçamentos a clínicas privadas», revela José Barros. Só que a ajuda foi negada por uma série de burocracias, «desde logo pelo facto do pedido ter de ser feito pelo médico de família», acrescenta. E a espera é longa para a Sofia. «O que mais me custa é mesmo esperar. Quando sou operada também dói, mas compreendo que isso faz parte do processo, agora a espera é verdadeiramente dolorosa», confessa.
Para além das mazelas físicas, há o lado psicológico. «Nós, na cantina, já presenciámos situações em que pessoas deixam de comer porque a Sofia está por perto e muita gente, na rua, fica a olhar e a questionar-se», garante Cristina Pissarra. Tudo isto faz parte do dia-a-dia de Sofia que, em consequência destes olhares menos indiscretos, se tornou numa pessoa fechada. «Tenho consciência que o problema é meu, mas prefiro primeiro conhecer as pessoas e ver como me tratam», adianta. «Apesar de ser uma rapariga extrovertida no seu círculo de amigos, em público é extremamente complexada, pois as pessoas vêem-na de uma forma diferente e esta situação limita-a a nível pessoal, emocional e até no futuro mercado de trabalho», sublinha José Barros. «O mundo vive à custa da moda, do que é bom, do que é bonito e, se virmos as coisas assim, a Sofia não pertence a este mundo», acrescenta Cristina Pissarra. «O que nós queremos é trazê-la de volta para este mundo, porque ela tem direito à vida, com todas as possibilidades que ela nos concede», acredita. Por isso, os amigos de Sofia já criaram um blogue na internet, em www.asc-turma2-guarda.blogspot.com e uma conta solidária na Caixa Geral de Depósitos, com o NIB 003 503 600 007 907 640 075.
Rosa Ramos



