Esta é a história de um soldado que tinha sede de poder, que ansiava trepar na cadeia de comando até chegar a general, nem que para isso o fizesse à maneira de um elefante numa loja de porcelanas.
Era uma vez um soldado chamado Serrinha. O soldado Serrinha era velhaco, mas queria mostrar serviço. Para tal usava de vários expedientes, desrespeitando os seus pares, pisando-os, falando por cima deles e berrando, berrando que nem um capado, mesmo que os seus interlocutores estivessem logo ali ao lado. Irritava-se e irritava, porque pensava que ninguém o compreendia. Mas todos já o compreendiam havia muito tempo. Era um péssimo orador e ainda pior ouvinte. Tentava impor-se pelos decibéis lendo o que alguém lhe escrevera previamente. Perdia, assim, alguma razão que ainda lhe pudesse assistir. Não passava de uma marioneta dos poderes instituídos. Falava muito alto e de dedo em riste como que para compensar as suas próprias fragilidades. Era um alinhado, e como alinhado, lutava por um lugar na cadeia de comando. Mas se ele era ainda e apenas um soldado! Coitado! Desconhecia que um movimento liderado por si tinha um grande potencial de insucesso pois faltava-lhe o mais importante: a massa cinzenta. Por outro lado vivia num país em que isso não era o mais importante nos cargos de poder, o que o acalentou. Do seu lado tinha apenas uma ambição desmedida e a força bruta. Só que isso não chegava. A ele, ao Serrinha, faltava-lhe também carisma, postura e presença. Quando trajava à civil imitava o seu grande líder, vestindo fato com sapatilhas, transmutando-se noutro cretino. Como pensava então impor-se se, mesmo entre os seus pares, o viam como um patinho feio? Na melhor das hipóteses (e também na pior) propuseram oferecer-lhe um quartel distante, para que nem ousasse almejar o quartel-general lá do sítio. Mas ele era paciente. Sabia que tinha que dar um passo de cada vez. O soldado Serrinha ia urdindo a sua teia de influências e praticando jogos de poder que lhe permitissem vir a tomar o seu almejado quartel. Um dia, para mal do seu exército, atingiu o poder, conseguiu o seu quartel e tornou-se um ditador sem escrúpulos e o povo viveu infeliz para sempre.
Nas histórias reais são os vilões que ganham quase sempre e o nosso país está cheio deles. Portugal está cheio dos Serrinhas. Está cheio e farto de que a incompetência, o seguidismo e o caciquismo sejam, a maioria das vezes, a única forma de atingir o poder. Como consequência, os outros “soldados”, aqueles que sabem que a sua missão é contribuir para um Estado melhor independente da facção a que se pertença, quando confrontados com “soldados” arvorados a “general”, como o nosso personagem principal, findos os contratos que os ligam ao “exército”, abandonam os “quartéis”, contribuindo para o agravamento da situação, pois, o ser humano é, no limite, intrinsecamente egoísta, lutando pela auto-preservação, evitando querelas e guerras que não são as suas, acabando por entregar a actividade “castrense” a bandos de energúmenos, liderados, por um“general” mentiroso compulsivo.
Assim andam as coisas pelo reino de Portugal.
Por: José Carlos Lopes



