A média de idades do distrito da Guarda é de 47 anos, a do país 42, e todas as previsões apontam para um aumento desses valores. Uma sociedade de velhos está por definição condenada a morrer. Não há (ou há muito menos) inovação e vitalidade, as empresas encerram, as pessoas vão-se embora, os bebés não nascem, fecham as escolas, as maternidades, os centros de saúde, os tribunais, a prazo não sobra nada, ou sobram apenas os que já não têm força ou alternativas melhores.
Há um enorme fosso de cinismo e hipocrisia entre a retórica contra a “interioridade” e a prática dos governantes a distribuir dinheiros e serviços em função do número de pessoas, ou melhor, do número de votantes. Para o interior, ficam só os restos, que, diga-se em abono da verdade, os autarcas locais têm espatifado com zelo em extravagâncias, tipo “espaços culturais”, bibliotecas sem livros, piscinas sem utentes, rotundas, polidesportivos, enfim, em “obra feita” e que se veja – mesmo que não sirva para nada –, enquanto reclamam, por dever de ofício, e já sem convicção, por mais infraestruturas e por mais investimentos grandiosos e salvíficos, que nunca chegam, ou chegam tarde de mais.
Hoje, o poder dos autarcas é medido pela capacidade de atrair pessoas. E para atrair pessoas nem é preciso muito dinheiro. Basta a sabedoria de deixar fazer em vez de querer fazer. Por outras palavras, os municípios têm de derrubar burocracias, alterar os Planos Diretores Municipais, baixar taxas, libertar terrenos a custos mais baixos possível, exigir a revogação de leis absurdas, ouvir com atenção as opiniões dos empresários, garantir a estabilidade e a clareza na relação com os investidores.
Espero sinceramente que esta nova leva de autarcas que entrou em funções recentemente perceba bem estes princípios elementares. Caso contrário, um dia destes acordam e não veem ninguém à sua volta.
Moral da história? Não podemos, por um lado, contar com Lisboa para nada e, por outro, temos de ser exigentes com os autarcas locais. É aqui que O INTERIOR entra enquanto fator de desenvolvimento regional. Como já várias vezes comentei com o Luís Baptista-Martins, há qualquer coisa de suicidário nesta luta do jornal contra este estado de coisas. Ganham-se antipatias (ainda que, verdade seja dita, passageiras na maior parte das vezes), ninguém agradece e volta e meia ainda tem de se ouvir aqueles comentários idiotas do tipo “dizer mal é fácil”. Não, não é nada fácil, fácil é estar calado.
O INTERIOR nasceu há 14 anos. Retrospetivamente, parece-me impressionante que tenha crescido e vingado num ambiente tão adverso. Parabéns a Luís Baptista-Martins, a todos os colaboradores de O INTERIOR e a José Luís Almeida, que acreditou e apoiou este projeto desde a primeira hora.
Por: José Carlos Alexandre



