Mentalidades
De acordo com o World Competitiveness Yearbook 2005, a despesa pública portuguesa com Educação situa-se nos 7% do PIB, um valor que coloca o nosso país entre os dez melhores do mundo. Estes valores contrariam as teorias que justificam o nosso proverbial atraso com o baixo nível de instrução, por isso alguns especialistas dizem agora que a crise portuguesa se deve à falta de qualificação da mão-de-obra. Ou seja, é preciso mais formação profissional.
Apesar do seu inegável interesse, a formação tem servido para mascarar os números do desemprego, financiar entidades formadoras, criar uns milhares de empregos a formadores e pouco mais. Na verdade, o problema de Portugal não é a falta de mão-de-obra qualificada, mas sim uma mentalidade retrógrada onde o civismo, o bom-senso e a noção de interesse público parecem não ter lugar.
O resultado está à vista. Cresce o número de licenciados, é verdade. Mas para que serve um curso superior, se essas mesmas pessoas demonstram uma total falta de civismo quando levam o cãozinho a defecar nos passeios utilizados pelos seus concidadãos, por exemplo. O que adianta frequentar os circuitos culturais, se no regresso a casa essa mesma gente transforma as estradas em autênticas pistas de competição, pondo em perigo outros condutores e demonstrando um total desprezo pela segurança própria e alheia.
A formação é importante, sim senhor, mas apenas se for complementada com uma mentalidade pautada pelo civismo, bom-senso e respeito ao próximo. A culpa do nosso atraso reside numa mentalidade tacanha, caracterizada por um espírito individualista minifundiário e um completo desrespeito pela coisa pública.
Veja-se o exemplo de muitos autarcas para quem o único objectivo é construir infra-estruturas análogas às do concelho vizinho, mas maiores. Ou dos empresários mais preocupados em aniquilar a empresa concorrente do que em juntar estratégias, ganhando dimensão.
Em vez de choques tecnológicos, o que o país precisa é de um choque de mentalidades, uma revolução completa na forma de pensar e agir.
E agora?
Já lá vão duas Assembleias-gerais e a Rádio Clube da Covilhã continua sem órgãos dirigentes. Aparentemente, quem lá está não pretende continuar e não aparece quem esteja interessado em assumir a direcção da rádio. A pergunta que se coloca é simples: como se chegou a este ponto? Simples.
Em primeiro lugar, as instalações da RCC saíram do centro da cidade, dificultando o trabalho de jornalistas, colaboradores e convidados dos programas.
Em segundo lugar, as polémicas em torno da rádio – sobretudo a sua conturbada relação com algumas pessoas ligadas à Câmara Municipal – afectaram a notoriedade da rádio, nomeadamente a sua imagem de independência.
Por fim, parece-me lógico que ninguém queira candidatar-se sem antes ver o relatório de contas, pois essa é a única forma de saber qual é a real situação económico-financeira da rádio.
O resultado de tudo isto é uma rádio que se afastou da população, sofrendo agora as consequências da opção por uma estratégia diferente daquela que tinha sido delineada por dirigentes anteriores. Chegados a este ponto, resta pedir a quem trouxe o barco até aqui, que o leve agora a bom porto.
Por: João Canavilhas



