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Editorial

Na última semana ocorreram duas fatalidades. Ambas por força da soberana vontade popular. O referendo no Reino Unido sobre a continuidade ou não dos britânicos na União Europeia, com o “Brexit” a vencer; e as eleições “gerais” em Espanha, cujo resultado foi similar ao anterior, ou seja, seis meses depois Espanha continua em suspenso.

A língua inglesa, a mais utilizada das línguas oficiais e o idioma utilizado pela generalidade dos políticos, eurocratas e funcionários poderá deixar de ser utilizada oficialmente em Bruxelas. Esta é apenas uma das muitas consequências do “Brexit” – e já há uma proposta nesse sentido.

O governo do demissionário e errante James Cameron não tem pressa, pois percebeu o problema em que meteu Inglaterra e de cujas consequências todos falamos mas que na verdade são incomensuráveis. O voto inglês é considerado como o resultado do medo e do populismo, mas é também o resultado da aspiração do povo a recuperar a soberania e é um voto contra o poder pouco democrático e quase ilegítimo dos eurocratas. O “Brexit” pode ter sido um voto dos mais velhos, dos que ainda acreditam no regresso da Grande Inglaterra, do mundo rural, dos ignorantes… Mas é uma escolha legítima contra os excessos da Comissão, contra a falta de democracia e legitimidade com que em Bruxelas tudo se decide sem respeitar as pessoas, os cidadãos, e a suas vontades ou opções. O “Brexit” é uma fatalidade para a Inglaterra e para a Europa porque pode ser o princípio do fim do projeto mais extraordinário que os europeus criaram em prol da paz, da concórdia e pelo desenvolvimento europeu. Mas para além do abrir da caixa de Pandora, não devemos esquecer que o País de Gales foi uma das regiões que mais fundos de coesão recebeu da Europa, que o Reino Unido não tinha de cumprir o Pacto de Estabilidade (nem aderiu ao Euro) e que estava longe de estar entre os maiores contribuintes líquidos da União (lista encabeçada pelo Luxemburgo com 422,25€ por cidadão, seguido Suécia com 396€, Dinamarca, 393€, Holanda 379€, …, Alemanha 319€,… Espanha 214€, Reino Unido 176€, …, Portugal 156€, …, e no fim da lista Hungria 90€, Roménia 67€ e Bulgária 55€). Ou seja, o Reino Unido, que entretanto também se pode desintegrar, optou pelo isolacionismo, não garantiu o futuro dos seus jovens, mas é o país com maior crescimento da Europa nos últimos 30 anos e com uma taxa de desemprego “ridícula” de cerca de 5 por cento. A frente populista vai crescer por toda a Europa. E cada vez mais irão defender menos Europa, quando o que precisamos é mais Europa, mas Europa mais democrática, mais solidária, mais tolerante e igualitária. O que comprova o “Brexit” é que os europeus viram as costas a uma Europa cheia de regras, incapaz de se reinventar, que não cresce e que defende a austeridade e a opressão.

A outra tragédia, a espanhola, diz-nos diretamente respeito. É o nosso vizinho ibérico e parceiro social e económico (o segundo destino das nossas exportações e o nosso segundo fornecedor) mas o maior cliente das nossas pequenas e médias empresas e também fornecedor essencial na pequena empresa ou nas grandes opções financeiras. A falta de governo em Espanha, o adiamento de reformas, o protelar decisões tem uma influência determinante na nossa economia e na nossa vida.

PS: O jornal “Reconquista”, de Castelo Branco, é o grande vencedor do Prémio Gazeta de Imprensa Regional 2016. Os prémios Gazeta são os mais importantes prémios de jornalismo em Portugal, são atribuídos pelo Clube de Jornalistas e têm o Alto Patrocínio da Presidência da República. O “Reconquista” é o terceiro jornal da Beira Interior a receber tão elevada distinção, antes já venceram os prémios Gazeta o “Jornal do Fundão” e “O INTERIOR” – o único a merecer tão distinto galardão no distrito da Guarda.

Luis Baptista-Martins

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