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«É aqui que temos qualidade de vida e que sabemos viver bem a vida»

Entrevista a Rui Ventura, presidente da Câmara Municipal de Pinhel

P- Cerca de um ano após ter tomado posse, como está o concelho de Pinhel?

R – Tentámos fazer uma coisa que, no nosso ponto de vista, era importante para Pinhel. Em primeiro lugar quisemos modernizar Pinhel, dar uma nova imagem ao seu núcleo central e modernizá-lo para atrair gente, nomeadamente para o comércio local. Neste momento, já há gente a comprar casas na Rua da República e portanto aquilo que pretendíamos está a concretizar-se, embora ainda haja muito trabalho pela frente. Uma outra aposta tem a ver com o desejo de criar uma dinâmica empresarial no concelho, não só de pequeno comércio. Desde 2006 que se criou aqui uma lacuna com o encerramento da Rohde, que esteve 18 anos em Pinhel e, por isso, houve laços que se criaram entre pessoas que se conheceram lá, muitos deles casaram, e ficaram os dois desempregados quando a fábrica encerrou. Tivemos um trabalho importante que acho que correu bem, dentro do que é o problema económico do país, que foi a descentralização de duas fábricas de calçado para Pinhel. Uma está a laborar com 18 postos de trabalho e com perspetivas de poder vir a criar cerca de mais 15. Outra fábrica, a Malit, vai trabalhar a partir de janeiro em Pinhel com mais 35 postos de trabalho. Conseguimos colmatar um problema social que existia, caso de algumas senhoras com cerca de 50 anos e que tinham dificuldade em sair do concelho e arranjar novas oportunidades de trabalho.

P – Considera que estão criadas condições para que brevemente haja cerca de 50 postos de trabalho na área do calçado?

R – A maior arma que eu pude usar para convencer os empresários foi a mão-de-obra qualificada que existia em Pinhel e depois também as instalações da ex-Rohde, que foram alugadas pela Câmara e que cedemos de forma a atrair essas empresas para cá. É um trabalho importante porque podemos cá ter equipamentos sociais, culturais e desportivos, mas se não tivermos tecido empresarial para fixar as pessoas elas vão embora e, portanto, é fundamental trabalhar o emprego dentro do concelho.

P – Pinhel é um concelho com grande produção de vinho a nível nacional. Como é que a Câmara pode ajudar a dinamizar esse setor?

R – A Câmara pode ajudar sempre de formas indiretas, que, por vezes, são mais importantes que as diretas. Para já, demos um passo importante para os cerca de 3.700 hectares de vinha que existem em Pinhel. Para poderem trabalhar as vinhas, as pessoas precisam de ter caminhos transitáveis e no orçamento que aprovámos para 2015 acertei com os presidentes de Junta a atribuição de uma verba a cada freguesia para o arranjo dos caminhos. Desta forma estamos a ajudar o pequeno agricultor para que possa tratar da sua vinha. Isto é fundamental e é um dos problemas de muitos agricultores do concelho. Depois existe um desafio que já fiz há muitos anos à Adega Cooperativa de Pinhel, que tem muita dinâmica, que felizmente está bem do ponto de vista financeiro, mas que, na minha perspetiva, precisa dar o salto. Podemos ter bom vinho, podemos produzir muita vinha, mas o principal é que o produtor sinta que pode produzir porque pode escoar tendo algum rendimento com isso. Nesse sentido, a Cooperativa poderá ter na Câmara um parceiro para o marketing do vinho de Pinhel e, portanto, contrataremos uma empresa de marketing para promover o nosso vinho no país e além fronteiras. Acho que é um contributo indireto muito importante, pois ao promovermos os vinhos de Pinhel estamos a promover os vinhos da Beira Interior e isso é importante, porque mais uma vez estamos a promover a região num todo e não só o concelho.

P – Que outros produtos endógenos se podem vender a partir de Pinhel?

R – Temos a cavaca de Pinhel, que é uma tradição e vamos tentar que ela entre no marketing que iremos fazer do vinho, até porque ambos combinam muito bem. Vamos também tentar fazer o mesmo com a amêndoa. A Câmara já fez isto em tempos e vai voltar a fazê-lo agora com incentivos para a plantação de amendoal no concelho porque a “Euroamendoa”, a maior fábrica a nível nacional de transformação de amêndoa, está instalada em Pinhel e por isso temos uma obrigação acrescida de fazer este trabalho com os nossos agricultores, que sabem que, à partida, têm a sua produção comprada. Infelizmente esta fábrica tem que ir à Califórnia e a Espanha comprar amêndoa porque em Portugal não há possibilidade. O azeite é outro produto caraterístico. O que é produzido nas encostas do Côa é fabuloso e temos que continuar a apostar na sua produção, tal como o mel. Hoje, temos empresários de mel no concelho com quantidades de produção significativas e que vamos continuar a apoiar. Temos de associar todos estes produtos a uma terra de granito, porque a qualidade que temos no vinho e no azeite tem a ver com o solo, que é para as pessoas perceberem porque existe esta diferença e esta qualidade em cada um dos produtos.

P – O que está previsto fazer nos próximos tempos para que Pinhel seja um destino turístico?

R – Pinhel tem que apostar na monumentalidade, que é algo que nos caracteriza muito. Pinhel é a cidade com mais solares por metro quadrado e quem aqui vem fica maravilhado. Na região há uma igualdade no que toca a oferta turística, todos temos monumentos e paisagens bonitas. A CIM, que é neste momento a responsável pela política de turismo para a região, é fundamental porque Pinhel não pode atrair turismo sozinha, tem que dar a conhecer também Almeida e Figueira de Castelo Rodrigo. Tem que ser algo partilhado entre todos os municípios. Naturalmente que Pinhel tem algumas características que temos que explorar. Há duas semanas tive uma reunião com a Fundação Côa Parque que, no meu entendimento, não está a fazer o trabalho de casa. Neste momento, a Fundação está apenas virada para Vila Nova de Foz Côa. Ora, o Côa nasce no Sabugal e vai até Foz Côa. Temos de trabalhar este território e a Associação de Territórios do Côa tem feito muito bem esse trabalho, mas a Fundação Côa Parque tem que perceber que não pode fechar-se e tem que se abrir para os outros territórios. Pinhel tem a porta sul do Vale do Côa, que vamos ter de trabalhar com todas as características inerentes a Cidadelhe. Estamos numa fase em que gostaríamos que Cidadelhe entrasse para a rota das Aldeias Históricas porque tem todas as características e estamos no centro de todos os municípios que as têm e Pinhel não. Também aderimos à Rede de Judiarias porque Pinhel também foi conhecido como um povo judeu. Há várias vertentes que temos de explorar, até porque em Pinhel existe uma lacuna que é o alojamento. Neste momento, já temos as Encostas do Côa, na Quinta Nova, a Casa das Pias, as Casas do Juízo, todos de turismo rural, ou seja, começámos a ter aqui algum investimento. Vai haver outro investimento nessa área também com um conceito completamente diferente. Em vez de se fazer um hotel com os custos de manutenção que implica, a sugestão foi ter uma casa onde se serve o pequeno-almoço e funciona como restaurante e receção de hotel. Essa casa já foi adquirida por um empresário, mesmo ao lado da Câmara, no centro da cidade. O empresário foi comprando algumas casas, espalhadas pela cidade e pelo centro histórico. O objetivo é fazer as pessoas/clientes circular pela cidade quando vierem para esse empreendimento e valorizar o património. O projeto está a avançar, já quase todas as casas estão compradas e acho que é um conceito muito mais interessante do que ter um edifício enorme com vários quartos.

P – Pinhel é um concelho de grande êxodo rural. Como se pode contrariar a desertificação do interior?

R – Em primeiro lugar temos que continuar a manter um serviço público de qualidade. Isso é fundamental. As pessoas não se fixam aqui se não tiverem uma boa rede de saúde e boas infraestruturas em termos de educação. Vamos continuar a fazer isso e continuar a investir noutras áreas naturalmente, porque as pessoas hoje procuram respostas do ponto de vista cultural e desportivo. Os serviços públicos de qualidade são fundamentais para a fixação das pessoas e depois existe uma política que pode ser importantíssima a nível do governo. Os vários governos passam, falam do nosso território, mas depois esquecem-se de dar o passo seguinte. Não basta falar, é preciso fazer. Falo da descentralização dos serviços públicos que estão em Lisboa. Como autarca, nunca fui tantas vezes a Lisboa como agora. Isto significa que temos cada vez mais centralizado o poder de decisão e nós autarcas temos de contrariar isso e fazer perceber que é fundamental descentralizar. Sou defensor da política de retirar as secretarias de Estado de Lisboa. Por exemplo, a Secretaria de Estado da Agricultura poderia estar na Guarda, a da Saúde em Coimbra e a do Turismo no Algarve. São alguns exemplos que se podiam espalhar pelo país. Porque é pagamos 80 milhões todos os anos para termos o Campus da Justiça em Lisboa? Se calhar, no interior do país era muito mais barato. Nós, autarcas, temos que fazer entender que a política de proximidade é muito mais importante e se não fossem as Câmaras o país não era o que é hoje. Esta coisa de andarmos na rua, de eu sair da Câmara e da pessoa me questionar faz com que tenha a obrigação de resolver o problema. Se a decisão estiver longe, naturalmente que existe essa dificuldade. Se não fosse o poder local, o interior do país estaria muito pior do que está hoje, mas eu não faço aquele papel do coitadinho. É aqui que temos qualidade de vida, é aqui que sabemos viver bem a vida e é aqui que temos que fazer com que aqueles que decidem e levam tudo para o litoral percebam que se as pessoas quiserem qualidade de vida é para o interior que têm de vir e acredito que um dia isso vai acontecer.

P – Acha que as Comunidades Intermunicipais são uma aposta correta? Considera que representarão os interesses dos concelhos da melhor forma?

R – Julgo que as CIM são um passo importante, mas há aqui uma falta de coragem para fazer tudo. No meu ponto de vista é muito difícil haver um sério desenvolvimento se não tiver associado aquilo que considero importante, que é o poder administrativo, financeiro e político. As CIM atuais não têm esta característica, não têm associados estes três poderes que são fundamentais para o desenvolvimento de uma região. Eu e o meu colega da Câmara da Guarda fomos uns defensores acérrimos do que seria a regionalização e eu sou um regionalista convicto. Acho que é por aí a aposta. Gastaríamos menos dinheiro do que gastamos hoje no país se fizéssemos a regionalização, não é aquele bicho papão que muitos dizem de que se vai gastar mais dinheiro. Não deixa de ser importante o papel que a CIM hoje têm, quanto mais não seja para ajudar a mudar mentalidades de muitos autarcas que só veem a sua “capelinha” e têm que olhar para o território num todo.

P – Os autarcas estão neste momento com um interesse comum aos da região?

R – Penso que sim. Há projetos âncora que estão no nosso plano estratégico que vai de encontro a isso mesmo, mas há um passo muito importante a que muitos não estão a dar importância, não só autarcas seguramente. Trata-se do que vai ser o plano de ação desse plano estratégico. Esses planos de ação têm de visar o que é o espírito da CIM e a valorização de um território num todo e não apenas de uma zona desta mesma CIM. É certo que mudar mentalidades demora algumas décadas, mas acredito que há colegas meus que já têm este espírito e veem muito mais que o seu território. Sei bem que há projetos âncora que não podem ser colocados em Pinhel, mas podem ficar na Guarda ou na Covilhã. Há algo que o plano devia ter em conta que é a mobilidade das pessoas, ou seja, a ligação por transportes públicos. Estamos a fazer a ligação de projetos âncora e planos de ação para a execução desses projetos no território, mas não nos podemos esquecer que muita dessa população tem uma idade já avançada e tem dificuldades de mobilidade para poderem usufruir desses equipamentos.

P – Que projetos acha essenciais no atual plano para a comunidade?

R – Confesso que sou há muitos anos um crítico em relação ao que se passa na Serra da Estrela. Não consigo conceber que basta nevar um dia e já não conseguimos subir à Serra da Estrela. A Serra da Estrela é uma marca que vende, mas não quando nós chegamos a meio e não podemos continuar a subir. Vende quando podemos usufruir dela todo o tempo que é possível, seja no inverno ou no verão. Existem alguns entraves do ponto de vista do investimento de hotelaria, que na minha perspetiva está controladíssimo e temos de contrariar isso. Os 15 presidentes de Câmara que estão na CIM têm a responsabilidade de devolver a Serra às pessoas e ao país. A Serra da Estrela é um projeto âncora de que todos nós da região podemos vir a usufruir.

P – Considera então que a região não tem beneficiado da proximidade com a Serra da Estrela?

R – Nem nós, nem o país. É mais grave porque não somos só nós daqui da região. De uma vez por todas temos de perceber que a Serra da Estrela vende o seu produto pela qualidade dos produtos que tem, mas tem que vender muito mais daquilo que é o seu turismo e atratividade para aqueles que moram em Portugal poderem usufruir daquilo que têm, mas também para aqueles que estão muito próximos de nós, os nossos vizinhos espanhóis, que podem perfeitamente usufruir. Bem perto da fronteira, vamos a Ávila ou Bejar e podemos usufruir disso. Nevou há pouco tempo e já não conseguimos subir à Serra. Acho que este é um projeto muito importante e espero que no trabalho dos planos de ação que vamos discutir possa estar que a CIM tem um papel importante para poder dinamizar a Serra da Estrela.

P – A Serra da Estrela é a grande âncora da região?

R – Se eu estiver em Lisboa e um estrangeiro me perguntar de onde eu sou e responder Guarda, o mais provável é não conhecer, mas se responder perto da Serra da Estrela já causa mais impacto. É na Serra que temos de começar a apostar.

P – O que será feito a seguir no espaço onde foi recentemente inaugurado o museu José Manuel Soares?

R – Naquele espaço vai ser colocado mais um museu e vamos devolver à cidade o Museu Municipal. Estamos a trabalhar nisso, a parte de baixo ficará para o Museu Municipal e para todo o seu espólio, que é muito. A Casa da Cultura vai ter ainda outra componente, ligada à Academia de Música de Pinhel, pois está ali muito perto, a cerca de 30 metros. O que pretendemos é que os seus alunos possam usar esse espaço para fazer um café concerto e onde as pessoas da cidade possam ir e ao mesmo tempo visitar aquele espaço. Ali haverá exposições temporárias e será uma Casa da Cultura, não só com um museu, mas também com uma parte que atraia pessoas que queiram visitar. Queremos criar dinâmica entre o museu e a cidade. Sendo certo que o museu atual vai ter uma outra dinâmica que está a ser trabalhada através da criação de protocolos com o Ministério da Educação.

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