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Diário Interior

21 de Janeiro

Sintra é sede de concelho de alguns dos mais terríveis subúrbios lisboetas. No entanto, no centro da vila com o Palácio Nacional atrás, a olhar a encosta, parece que estamos num país diferente. Um país onde não se constroem prédios feios e enormes em sítios lindíssimos. Por causa de Sintra, hoje reconciliei-me um bocadinho com a pátria. Amar Portugal é, em mim, uma intermitência de amuos e paixões.

22 de Janeiro

Leio no Público que a ONU, com o apoio óbvio da chusma politicamente correcta, pretende intervir junto dos governos nacionais para que estes promovam algumas medidas políticas restritivas para controlar a alimentação dos seus cidadãos. Nesta paranóica ideia de controlo total do indivíduo, já não sobra nada. Quer dizer, sobra. Há liberdade de decidir, querem convencer-me, sobre a sorte dos fetos em gestação. Neste caso, parece que a atitude progressista é não pedir nenhuma opinião a um dos interessados. Com argumentos exactamente opostos aos que apresentam contra o tabaco ou os hidratos de carbono, ouço dizer que é medieval o Estado querer preservar a mera sobrevivência de alguém que não tem nenhuma possibilidade de defesa. A fúria cega dos que se auto-denominam progressistas, mas que não passam de um bando totalitário, atirou-nos para este mundo. Onde comer hambúrgueres é considerado um atentado contra a saúde pública, ou mesmo contra a Vida, mas impedir o nascimento de um ser humano em formação é apenas uma questão de consciência.

23 de Janeiro

Vejo In The Cut, tentativa de film noir de Jane Campion com Meg Ryan e Jennifer Jason-Leigh. O filme é fraquinho. O argumento é previsível e pouco original. O ambiente mais decadente que de policial negro. Eduardo Prado Coelho escrevera no Público que o filme tem um farol fálico e nos leva a uma descida à noite dos sexos. Não discuto diagnósticos clínicos em público. Eu fiquei desapontado. Com o filme, com a disforme Jennifer e com as maminhas da Meg Ryan. Anos e anos de imaginação destruídos por uns segundos de topless. O cinema já não é a fábrica dos sonhos. Hoje por hoje tornou-se no seu matadouro.

24 de Janeiro

Leio, com o atraso devido, a Vanity Fair de Janeiro e a Periférica de Outono. Nenhuma delas se vende na Covilhã. Na americana, óptimo artigo de Christopher Hitchens para perceber a Indonésia de hoje e a influência do islamismo naquela região e exemplar reportagem sobre o campo de prisioneiros em Guantamano. Na portuguesa, o costume. A revista que Pedro Rolo Duarte adora desancar é, sem nenhuma dúvida, um dos melhores produtos impressos em Portugal. Feita em Vilarelho, Trás-os-Montes, publica Richard Zimler (O Último Cabalista de Lisboa), entrevista Eduardo Brum (escritor e editor da Tinta Permanente, casa responsável pela revista Ficções) e mostra os melhores cartoons de Riber Hansson sobre o confilto israelo-palestiniano. Para além da cambada do costume, que escreve bem como poucos. Felizmente, Portugal não acaba nas portagens de Sacavém.

25 de Janeiro

Ao fim da noite, no fim de um banal jogo de futebol, aconteceu o que já todos viram. Num tempo em que cada vez menos se lida bem com a morte, a sua visão em directo causa comoções pouco habituais. E se há alturas em que o respeito recatado pela dor devia ser a regra, esta é claramente uma delas. Uma vez mais, ninguém ligou nenhuma. Imagens repetidas à exaustão e directos por tudo e por nada. Pacheco Pereira, no Abrupto, chamou-lhe “masturbação da dor”. Eu, por acaso, acho que fomos fornicados.

Por: Nuno Amaral Jerónimo

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