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Complexidade e moral

Saliências

Um tipo foi à garagem do meu primo e saiu de lá com o carro na mesma. O meu primo é o concessionário da marca e não parece dominar o assunto automóvel. O rapaz não sabe que ele é meu primo e pergunta o que pode fazer. Uma “gafe” astronómica se soubesse que estava com a família errada. Que faço eu? O primo não presta mas ofende-se. Estes dilemas típicos da humanidade tornam-se mais complexos nos Serviços quando o chefe é um trôpego, ou em casa com a família mais directa. Dou-lhe um bom alvitre e mando-o para outra marca e outra oficina? Digo-lhe que o primo é um desajeitado? Perco um primo e a tempo perderei um amigo. “Nem para a família é bom”. A verdade é feita destes matizes. O mesmo se pode passar com a pergunta se o chefe é o indicado para tratar um amigo. E se não é? Diz-se? Concluí recentemente que a língua é uma arma de dois gumes. Por vezes corta-nos a mão. Convenci-me mesmo de que é mais perigosa que os dentes. Vou dizer ao rapaz que o primo é fraco de mãos, que anda com reumatismo, que tem andado no médico. Depois peço segredo da informação. Assim direi: “vai lá depois, mas agora não”. Ou posso ensaiar aquela estratégia do “cinzento”. – Vou-me informar e digo-te amanhã. Não digo nada e evito o tipo durante uns dias. Há tantos modos de resolver as complexidades da verdade e são tão imensas as questões morais. São variantes que a vida nos dá.

Por: Diogo Cabrita

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