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Com posto de mudança

observatório de ornitorrincos

Há várias decisões particularmente difíceis para um OINK1, a saber: lavar a loiça quando as facas se esgotam na gaveta dos talheres, dar liberdade às mulheres – mesmo as namoradas – de deixar objectos pessoais pela casa dele de uns dias para os outros e mudar de apartamento. OINK que é OINK vive em apartamentos, nunca em chalés. A única concessão que um verdadeiro OINK pode fazer às moradias isoladas é habitar alguns meses numa roulotte, e mesmo assim só com dois objectivos, de preferência simultâneos: esquecer uma rapariga, conhecer outras raparigas. Sonhos com vivendas são sinais do subconsciente de que o seu estado de solteiro é também uma opção, embora não dele próprio.

Vem isto a propósito da minha própria pega de caras com o destino. Após sete anos – o mesmo tempo que Jacob serviu Labão e apenas para ficar com a prima pior – no mesmo sítio, decidi mudar de casa. A muito custo, por razões várias.

Primeiro, um OINK gosta pouco de mudar. Não porque seja avesso a ela, apenas porque dá muito trabalho. Segundo, um OINK tem alguns segredos espalhados pela casa e uma mudança exige sempre a presença de outras pessoas a ajudar e a mexer nas coisas. O truque para resolver isto é convidar outros OINK’s, gente geralmente discreta e compreensiva. Terceiro, numa casa nova é preciso decorar outra vez os passos necessários para chegar sem olhar ou às escuras do sofá da sala à cama do quarto e desta à casa de banho e ao frigorífico. Quarto, num prédio novo é preciso voltar a explicar aos vizinhos que aquelas miúdas todas que passam lá por casa são pessoas de família que vêm da terra e “dá-lhes mais jeito dormir aqui em casa, fica mais perto da cidade”. Finalmente, a quinta razão: um OINK não menospreza a possibilidade de o seu nome ser escolhido para passar uma semana a sós com a Renée Zellweger e a carta de aviso ir parar à morada antiga.

Se, no entanto, os solteiros2 mais afoitos e aventureiros se decidirem a tal hercúlea tarefa, aqui ficam alguns conselhos úteis.

Um OINK nunca, em nenhuma circunstância, deve regatear qualquer pedido ou sugestão das mulheres presentes na tarefa da mudança. Ou não as quer lá, ou faz tudo o que elas sugerem, inclusivamente espreitar para baixo de todos os armários, para se ter a certeza de que não há ratos, baratas e aranhas. Não há meio-termo.

Um OINK aceita humildemente as opiniões dos senhores e senhoras casados ou em união de facto3 acerca de uma organização doméstica responsável, agora que se vai começar uma nova vida numa nova habitação. Ali finalmente instalado, um OINK liga tanto a esses conselhos como o meio campo do Sporting às ordens de Peseiro e em apenas 15 dias a casa está transformada num pardieiro igual ao anterior apartamento.

Um OINK não deita nada fora no processo de mudança. Aquele filme porno em VHS, a água-tónica de 1997 e as calças de há dez quilos atrás poderão ser determinantes na obtenção da felicidade no novel domicilio. Há uma excepção. Os ganchos de cabelo e outros acessórios femininos encontrados pela casa durante a arrumação podem seguir o caminho do lixo doméstico. Rapidamente, o recém-habitado apartamento terá também a quota de “coisinhas de gaja” suficiente para a obtenção do certificado de habitabilidade do Instituto Português da Oinkalidade.

Nessa altura, a nova casa do OINK será, outra vez finalmente, um alegre e confortável chiqueirinho.

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1 One Income, No Kids – refere-se a pessoas solteiras sem filhos, frequentemente gajos

2 “Gajos” no original (N.R.)

3 Esta coluna favorece a igualdade de tratamento às diversas opções de conjugalidade

Por: Nuno Amaral Jerónimo

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