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Abate de 40 árvores causa polémica na Guarda

Câmara da Guarda justifica decisão com estudo da UTAD, mas os responsáveis da investigação apenas aconselharam o corte de um cedro, que já foi abatido em 2015

Quarenta cedros da Avenida Cidade Salamanca, na Guarda, com mais de cinquenta anos, começaram a ser abatidos na terça-feira. Uma medida anunciada no passado mês de fevereiro pela autarquia e que tem em vista a rearborização daquela artéria com outras árvores de folha caduca. Até então, no site do município podia ler-se que a medida «vem no seguimento de um estudo técnico encomendado pela Câmara Municipal da Guarda a uma equipa da Universidade de Trás-os-Montes».

Se até terça-feira a população permaneceu silenciosa sobre este assunto, tudo mudou anteontem com o início dos trabalhos e depois do próprio responsável do estudo mencionado pela Câmara condenar o abate. Num ofício enviado por Luís Miguel Martins à autarquia, a que O INTERIOR teve acesso (ver texto ao lado), pode ler-se que no estudo realizado em 2014 e 2015 foram analisadas 94 árvores na Avenida Cidade de Salamanca, tendo sido «recomendado o abate de um Cipreste-do-Bussaco (Cupressus lusitanica), devido a uma cavidade na zona do colo que colocava em risco a sua segurança». O cedro em questão acabou por ser retirado ainda no ano passado. O mesmo estudo analisou também 12 tílias «em condição débil devido à rolagem a que foram sujeitas em 2014», pelo que apresentam «perda de resistência e início de podridões no lenho», refere o professor.

Também Helder Sousa, professor da UTAD que colaborou no estudo, diz que o resultado da avaliação realizada na avenida em questão revelou que a condição global das restantes árvores «é boa, não tendo sido detetados problemas estruturais em árvores ou ramos que pudessem por em causa pessoas ou bens». Os cedros, que entretanto já foram cortados, eram das árvores mais antigas e mais altas da Guarda e Luís Miguel Martins não vê «razões objetivas, técnicas ou científicas que fundamentem os abates» propostos pela autarquia guardense. O especialista da UTAD adiantou que o estudo realizado compreendeu as principais ruas da cidade, tendo sido efetuados diagnósticos a 507 árvores. Nas avaliações foram consideradas os fatores dendrológicos, dendrométricos, ambientais, abióticos, bióticos, fitossanitários e relativos à segurança, de cuja análise resultou a fundamentação técnica das intervenções. O autor lembra que o resultado final apresentado pela UTAD indicava apenas 14 abates e 242 podas diferenciadas em 242 árvores.

Com esta intervenção nas árvores da cidade, Álvaro Amaro prometeu a plantação de cerca de 2.000 até ao final do inverno de 2017, nomeadamente bétulas, teixos, liriodendros, faias e castanheiros da Índia. Os trabalhos que começaram na terça-feira decorrem até à próxima segunda-feira, divididos por quatro fases. Até ontem decorreu a primeira fase, hoje termina a segunda e dar-se-á início à terceira até amanhã, dia em que começa também a quarta fase que decorre até à próxima segunda-feira.

Quercus contesta abate de árvores

A Quercus contesta a rearborização da Avenida Cidade de Salamanca devido ao «abate de dezenas de árvores sem uma fundamentação aceitável, assim como ao facto da pretensão da Câmara Municipal contrariar o proposto num relatório de análise técnica da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)».

De acordo com o município, os abates propostos incidem sobre os indivíduos identificados no relatório “Inventário das Árvores da Cidade da Guarda”, orientado pelo professor Luís Martins, da UTAD. Ora, o referido relatório refere apenas a necessidade de abate de uma árvore naquela avenida, por se apresentar, segundo o documento, «numa condição de declínio acentuada e/ou a colocar em risco pessoas e bens pela possibilidade de fratura de ramos ou da queda da própria árvore». A associação revela que «tem conhecimento de que a referida árvore já foi cortada em 2015, através de comunicação da UTAD à Câmara». Nesse sentido, a Quercus apela à suspensão do abate promovido pelo município, referindo que «compreende a necessidade de substituição de algumas árvores, mas deveria ser efetuado um planeamento faseado ao longo de vários anos e não cortar todo o arvoredo urbano em poucos dias».

Questões estéticas e urbanísticas motivam decisão da autarquia

Afinal o que está a motivar o abate de árvores na Avenida Cidade de Salamanca não é o estudo encomendado à UTAD, mas sim um posterior pedido a uma empresa de Lisboa, associada ao Instituto de Agronomia.

Esta foi a explicação dada pelo vereador com os pelouros do Urbanismo, Proteção Civil Municipal e Gabinete Técnico Florestal. Contactado por O INTERIOR, Sérgio Costa referiu que «o primeiro estudo é fitossanitário e o mais recente, que surge no seguimento do anterior, é fitopatológico» ou seja, está associado a questões do urbanismo. Segundo o vereador, os dois estudos «não são a mesma coisa, nem são comparáveis». O mais recente terá aplicado as medidas que a investigação levada a cabo pela UTAD recomendou e tendo em conta «questões estéticas e urbanísticas, conclui o plano que agora levamos a cabo», com a substituição de algumas espécies. «Este plano foi apresentado a 8 de fevereiro, numa sessão pública, amplamente participada e na altura elogiada pelos presentes», sublinhou Sérgio Costa.

Quanto ao número de árvores abatidas e ao número de anos que as novas levam a crescer, o vereador desvaloriza, explicando que naquela avenida «será plantado o dobro, 80 árvores, com o mínimo de cinco/ seis metros, como consta no plano de arborização».

PCP preocupada com corte

A comissão concelhia da Guarda do PCP revelou, em comunicado, a sua preocupação com o abate de árvores na Avenida Cidade de Salamanca: «Destruir árvores, já implantadas e saudáveis, substituindo-as por outras que irão demorar muitos anos a crescer é tecnicamente errado e culturalmente condenável», criticam os comunistas.

Para a concelhia, esta decisão torna-se ainda mais preocupante devido aos «custos injustificáveis e desnecessários, na aquisição das plantas, em obras de plantação e arranjo, nas regas e nutrientes, o que colocará em perigo a identidade da cidade e o seu património natural». Por isso, os eleitos da CDU na Assembleia Municipal já enviaram um requerimento ao presidente daquele órgão autárquico para acabar com o abate. Apelam também aos guardenses para se oporem a esta decisão.

Opiniões dividem-se

Para quem ali vive e trabalha as opiniões dividem-se. Se há quem se recuse a aceitar o desaparecimento de tantas árvores ao longo da avenida que faz a ligação ente a cidade e a Guarda-Gare, também há quem ache que esta é a decisão certa, lembrando que assim se evitam outros males, como a queda de uma árvore, como aconteceu há cerca de dois anos, recorda Rogério Costa, gerente de um dos estabelecimentos naquela avenida. «Até que enfim vão ser abatidas», afirmou, referindo que não é apenas pelo perigo que representam, mas também pela sujidade que provocam. «São árvores de grande porte e não podem estar dentro das cidades», considera.

Da mesma opinião partilha Maria Gorete Soares, gerente de outro estabelecimento comercial, para quem, «por uma questão de segurança», o abate é a melhor opção, pois «todos os anos caem galhos das árvores». Já «o pólen que as arvores libertam e as alergias que causam» serão outros dos motivos apresentados pelos comerciantes daquele local, bem como a ausência de sol. Por sua vez, quem está contra o abate defende a natureza e recusam-se a aceitar esta decisão. Na página do facebook d’ O INTERIOR foram vários os cidadãos que se insurgiram contra a decisão da Câmara e alguns chegaram a manifestar-se na avenida, junto ao local onde as árvores estavam a ser cortadas.

Isidro Capelo foi um dos manifestantes e, aproveitando as últimas horas de sombra de uma das árvores com destino traçado, confessava-se «revoltado» com a ação da autarquia. «Estas árvores já existiam e ocupavam este espaço antes das construções e dos prédios. Os moradores lá terão os seus motivos, mas os cedros podem ter uma manutenção que possa dar um benefício aos moradores e aos habitantes, como a poda», exemplificou. O guardense não esquece o ofício enviado pelo professor Luís Miguel Martins, «que desmente os argumentos apresentados pelo senhor presidente» e acusa a Câmara de «falta de coordenação». Discordando do corte das árvores, Isidro Capelo alerta ainda para a forma como está a ser feito: «É tudo muito rápido e não se entende como os troncos de alto porte caem desta forma no chão», pois a cada queda há «vibrações bastante acentuadas, que chegam à estrutura das casas, podendo provocar problemas nos edifícios, como fissuras», avisa. Na sua opinião, nesta medida não pode ter sido tomada por razões de ordem estética, pois «a beleza estava de pé», concluindo que «há falta de rigor neste processo».

Embora muitos moradores sejam a favor do corte das árvores, Berta Nunes diz não conseguir entender a decisão e juntou-se aos manifestantes. «Não há doença que possa estar em todas as árvores», referiu, lamentando que tenham sido poucos a juntar-se «para evitar um atentado destes. As pessoas deviam estar mais unidas». Para Berta Nunes, «não há sujidade ou falta de sombras que justifique o abate de 40 cedros com tantos anos».

Ana Eugénia Inácio Intervenção nas árvores da Avenida Cidade de Salamanca decorre até segunda-feira sob grande contestação

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